ZeideI survived only to tell
Browse the Archives

Timeline, 1914–1950

Mojsie Izrael Stobiecki — linha do tempo, 1914–1950

This notebook is in Portuguese, as written during the research. Translation follows in stages, after the first published version.

File
cronologia/linha-do-tempo.md
Updated
2026-09-01
Terms of use
Written by the family with AI assistance, August–September 2026. The site's source of truth.

Como ler esta tabela. A coluna Fonte diz de onde vem cada linha, e isso importa:

MarcaSignifica
ENTREVISTA 00:00ele mesmo diz, no vídeo, no tempo indicado
DOCUMENTOconsta de um documento — da família (carteira de admissão, habilitação) ou de arquivo (fichas de DP do Arolsen Archives, recuperadas em 30/08/2026)
HISTÓRIAnão é sobre ele; é o fato histórico que enquadra o momento, com fonte em ../contexto/
INFERÊNCIAdedução minha, cruzando as três coisas acima. Não é fato estabelecido.

Datas em negrito são firmes. Datas com ~ são aproximadas. Onde há conflito entre versões, a linha diz qual foi adotada e por quê.


I. Kalisz, 1914–1939#

QuandoO quêFonte
12/12/1914Nasce em Kalisz, Polônia (então Império Russo, sob ocupação alemã desde agosto)ENTREVISTA 01:32 · família
Pai: Hersch (Herz/Hersz) Stobiecki, nascido em Błaszki, 30 km de Kalisz. Mãe: Regina, de solteira Grodans — grafia confirmada pela ficha DP de 1946 (Arolsen 69312025)ENTREVISTA 02:27, 06:11 · DOCUMENTO
Avós paternos e maternos moravam em Błaszki, de um pequeno comércioENTREVISTA 03:02, 06:40
Herz tinha quatro irmãos e uma irmã; os irmãos moravam em KaliszENTREVISTA 03:33
Mojsie é o mais velho de cinco (o cartão de registro da família, ~1934, documenta todos): Izrael/Mojsie (12/12/1914), Frania (03/02/1917), Marjem/Marisha (04/05/1919), Szyja/Shia (06/03/1922) e Majer (16/01/1929) — o nome do caçula, que ele já não lembrava em 1997, está recuperado: "Majer" no cartão + "Mayer" na ficha VHADOCUMENTO (AP Kalisz, karta 219 — ../pesquisa/docs/) · ENTREVISTA 07:46, 127:50
VIII/1930Morre Frania, aos 13 anos, em Kalisz — a irmã que nenhuma memória registrou: não é mencionada na entrevista, e a família não sabia dela até 30/08/2026. Mojsie tinha 15DOCUMENTO (karta 219, adnotação "zmarła VIII 30 r. Kalisz")
~1921Entra no cheder aos sete anos; depois a escola da comunidade (gemeinde), mista, em ídiche, hebraico e polonêsENTREVISTA 07:08, 13:41
~1927Bar mitzvah, aos 13 anos, na sinagogaENTREVISTA 12:36
anos 1920–30A família passa de muito pobre a bem estabelecida: loja de confecções na Kanonicka, moradia no segundo andar do mesmo prédio, rua Parczewskiego 12. Confirmado por fonte primária: a Księga Adresowa Polski de 1929 lista o alfaiate "Stobiecki H., Nadwodna 12" — Nadwodna era o nome da Parczewskiego até 1937ENTREVISTA 04:03, 10:12 · DOCUMENTO (KAP 1929, em ../pesquisa/docs/)
1931Censo polonês: Kalisz tem 15.300 judeus, ~30% da população (ele estimou 20–30%, portanto correto)HISTÓRIA → 01-kalisz
até ~1932Estuda até os 18 anos; trabalha na loja em paraleloENTREVISTA 14:30
anos 1930Militante do Beitar (movimento juvenil revisionista de Jabotinsky) e do MaccabiENTREVISTA 14:57, 17:38
1936–1938Antissemitismo se agrava em Kalisz: piquetes nas portas das lojas judaicas, feira segregada em 1937, restrição ao abate kosher em 1938ENTREVISTA 11:02 · HISTÓRIA → 03-antissemitismo
1937–1938Serviço militar regular no exército polonêsENTREVISTA 22:11
25/07/1938A fotografia de família — os pais, Marisha e o noivo; em pé, Szyja, Mojsie e o caçula Majer (os dois irmãos identificados pela família em 01/09/2026; Majer, 9 anos pelo D02, aparenta mais — nota em C03)DOCUMENTO (slide 4) · ENTREVISTA 127:25 · família
~1938–39O noivo de Marisha morre "no início da guerra"família

II. A guerra começa, 1939#

QuandoO quêFonte
01/09/1939Alemanha invade a Polônia. Kalisz fica a ~30 km da fronteira alemãENTREVISTA 04:55 · HISTÓRIA
~fim ago/1939Mobilizado. A unidade é posicionada perto da fronteiraENTREVISTA 04:47
primeiros dias de set.Em retirada, passa pela própria cidade. Manda recado ao pai por um desconhecido. Herz o encontra na rua e lhe entrega [tefilín?] e um pouco de dinheiroENTREVISTA 05:22
06/09/1939Alemães ocupam Kalisz. Violência imediata contra judeusHISTÓRIA → 04-setembro-1939
set/1939Retirada até Varsóvia; armamento pesado abandonado; trem bombardeadoENTREVISTA 23:01
17/09/1939URSS invade a Polônia pelo lesteHISTÓRIA
~fim set/1939Capturado pelo Exército Vermelho. Foge escondendo-se no mato altoENTREVISTA 24:23
28/09–05/10/1939Sukkot. Acolhido com outros soldados na sinagoga de Shedlitz (Siedlce, que ele nomeia em iídiche); cada soldado janta numa casaENTREVISTA 25:56
out–nov/1939Caminha 400–500 km de volta para Kalisz, mais de um mês na estradaENTREVISTA 26:43
No trem: dois alemães procuram judeus. Ele finge ser mudo por 10–15 minutos e um polonês o defendeENTREVISTA 27:41
Na estrada, um oficial alemão o arranca do acostamento e o joga do outro lado — "o segundo milagre"ENTREVISTA 28:46
Numa casa perto de Błaszki, acorda de madrugada com um homem com o emblema de Hitler, que o esconde até a madrugada e o leva à estrada — "o terceiro milagre"ENTREVISTA 31:34
~nov/1939Chega em casa. Encontra a família inteira viva. É a última vez que os vêENTREVISTA 32:32

III. A separação, 1939–1940#

QuandoO quêFonte
10/11/1939Começam as expulsões em massa dos judeus de Kalisz, pelas ruas mais ricas primeiro, para instalar alemães bálticos. Dez minutos para fazer as malasHISTÓRIA → 05-warthegau
nov/1939Avisos nas esquinas mandam os homens da idade dele se apresentarem. Ele propõe à família fugir junto; os pais recusam: "Como eu vou fazer? Vou deixar tudo isso aqui?"ENTREVISTA 33:43
~nov–dez/1939Combina com o irmão que ele tome conta. Despede-se dos pais e atravessa para a zona soviética, até BiałystokENTREVISTA 34:24
20/11–02/12/1939Mais de 10.000 judeus de Kalisz são trancados na hala targowa (mercado coberto dos irmãos Szrajer), cercada de arame farpado; epidemia de tifoHISTÓRIA → 05-warthegau
02–14/12/1939Partem dez trens com 15.862 pessoas para o Governo Geral. Os dois primeiros, de 02/12, vão para Lublin e Sandomierz; seguem-se Kałuszyn, Łuków, Sarnaki, Sokołów Podlaski, Węgrów, Łosice, Rzeszów e Kraków. O último parte em 14/12 — dois dias depois do 25º aniversário de MojsieHISTÓRIA → 05-warthegau
~1939–40INFERÊNCIA: a família terá sido expulsa nessa leva — moravam numa rua central com loja, exatamente o perfil visado primeiro, e Mojsie saiu dias ou semanas antesINFERÊNCIA
1939–40Em Białystok como civil. Arruma emprego num restauranteENTREVISTA 36:46
28–29/06/1940Deportação soviética dos bieżeńcy~75.000 refugiados da zona alemã, mais de 84% judeus. Presos numa batida de rua, embarcados em trensHISTÓRIA → 07-deportacoes
Ele é pego numa batida assim, com a certidão de nascimento no bolso, ao sair para dar uma volta depois do trabalhoENTREVISTA 37:07, 41:41
A viagem de trem: dois meses, 60 pessoas por vagão, beliches de tábua, um buraco no chão, peixe salgado e nenhuma água. "Todo o trem começando a gritar água"ENTREVISTA 39:32, 40:45

IV. União Soviética, 1940–1943#

Este é o trecho com a contradição interna dele. Ver a nota no fim.

QuandoO quêFonte
jul–ago/1940Chega a um campo de trabalho. Ele o chama de "Kronstadt" (fala confirmada; lugar não identificado), fora da cidade. Uma comissão vem de LeningradoENTREVISTA 60:44
INFERÊNCIA: compatível com o norte da Rússia (Arkhangelsk, Vologda, Komi), destino principal da leva de junho de 1940INFERÊNCIA
1940–41A entrevista que lhe salva a vida: um oficial lhe fala em hebraico e pergunta a profissão do pai. Ele mente — diz que o pai era alfaiate de fábrica, e que sabe costurarENTREVISTA 61:49
1940–41Montam uma oficina de costura do zero, com um alfaiate de Lodz ensinando. Linha de produção improvisada. Reconhecidos como stakhanovistas: comida e cama melhoresENTREVISTA 62:49, 64:00
22/06/1941Alemanha invade a URSSHISTÓRIA
~jul/1941Evacuação para a Sibéria. Trens fechados, peixe salgado, russos impedidos de dar água nas estaçõesENTREVISTA 70:20
1941–42Sibéria: 40 graus abaixo de zero, barracão sem banheiro, trabalho na terra. "Eu me pergunto sozinho: que jeito eu sobrevivi?"ENTREVISTA 71:25, 72:21
12/08/1941Anistia aos cidadãos poloneses na URSS (acordo Sikorski–Maiski). Entre ago/1941 e dez/1942, 90.662 judeus poloneses são libertados de campos e assentamentosHISTÓRIA → 09-anistia-anders
início de 1942Desloca-se para a Ásia Central (Uzbequistão, Cazaquistão), onde se forma o Exército de Anders. Ele cita Karaganda e TashkentENTREVISTA 42:32, 44:11
a partir de 06/02/1942Recrutamento no exército polonês. Os soviéticos proíbem o alistamento de judeus dos territórios anexados; discriminação sistemáticaHISTÓRIA → 09-anistia-anders
~05/04/1942O episódio de Tashkent. Páscoa católica; almoço do exército. Um oficial polonês manda barrar judeus da fila. Ele recusa: "Eu sou soldado polonês, mas sou judeu. Eu não vou fazer isso." Preso, julgado — e ganha a causa; o oficial é transferidoENTREVISTA 43:54–46:00
mar–set/1942O Exército de Anders sai da URSS pelo Irã. Ele não vaiHISTÓRIA · INFERÊNCIA
maio/1943Forma-se a 1ª Divisão Tadeusz Kościuszko, sob comando soviético (Exército de Berling). Dos 54.600 soldados, ~2.400 judeusHISTÓRIA → 10-berling-lenino
1943"Quando chegou já outro presidente, já era presidente comunista... assim marchamos junto com o exército russo"ENTREVISTA 49:22
12–13/10/1943Batalha de Lenino, primeiro combate da divisão: 25–33% de baixas, cerca de 3.000 homensHISTÓRIA
~1943Ferido na mão esquerda por estilhaço de granada. Iam amputar; ele implora e conseguem salvar a mão. Um mês de hospital. Ficou sem força na mão pelo resto da vidaENTREVISTA 53:17

V. O retorno à Polônia, 1944–1945#

QuandoO quêFonte
23–24/07/1944Soviéticos libertam Majdanek, primeiro grande campo capturado praticamente intactoHISTÓRIA → 11-majdanek
jul/1944O 1º Exército Polonês participa da ofensiva Brest–LublinHISTÓRIA
~jul–out/1944Ele entra em Majdanek. Dorme nas barracas. Descreve os crematórios, os ossos, as montanhas de sapatos de criança, as valas sem fim. E diz: "E meus pais, minha e toda a família morreram lá."ENTREVISTA 55:07–56:09, 79:40–81:25
02–09/10/1944Sukkot. Judeus sobreviventes de Lublin pedem aos oficiais que liberem os soldados judeus para jantar na cidade. Marcham até lá em filaENTREVISTA 56:16
nov/1944Cria-se o Museu Estatal de Majdanek — o primeiro museu de campo de concentração do mundo, quatro meses após a libertaçãoHISTÓRIA
1945Passa por Kalisz com o exército. Encontra uma vizinha sobrevivente e descobre o que houve com a famíliaENTREVISTA 84:42, 85:33
O relato dela: um zelador do prédio denunciou os bens escondidos no porão; os alemães vieram de carroça, usaram Herz como carregador e, tiradas as bestas, o puseram a puxar a carroça no lugar dos cavalos. Todos morreram. Só sobre Marisha ela tinha dúvida — estava fora do campoENTREVISTA 86:04–87:19
1945Volta à loja (virou loja de ferragens) e à casa (ocupada por uma polonesa que chora e diz que antes dela moravam alemães). Procura o zelador para se vingar; não o encontraENTREVISTA 88:23–89:55
1945Vai ao gueto de Lodz, já vazio: "só se pisava nas fotos que tinha no chão"ENTREVISTA 106:32
1945Condecorado com medalha de bravura do exército polonês. Baixa em LodzENTREVISTA 90:13, 91:38
1945Consta do Registry of Jewish Survivors do World Jewish Congress como "Stobiecki Moniek, Kalisz" — registrado como sobrevivente na própria cidade natalDOCUMENTO (Arolsen 78813849, p. 243; cópia em ../pesquisa/docs/)

VI. Europa do pós-guerra, 1945–1947#

QuandoO quêFonte
20/11/1945 – 01/10/1946Julgamento de NurembergHISTÓRIA → 14-nuremberg
~inverno 1945–46Sem família e sem casa, junta-se a um grupo de ex-soldados e atravessa a fronteira com um pacote de 100 cigarros e um litro de vodca. Um quilômetro de neve aberta até a floresta ("muito inverno, muita neve")ENTREVISTA 93:10
~1946Frankfurt an der Oder; "um tempo na Alemanha"ENTREVISTA 95:01
08/06/1946Registrado como deslocado no Assembly Center 67, Heidenheim an der Brenz (Baviera/Württemberg): apátrida, solteiro, alfaiate, pai Hersz, mãe Grodans Regina, destino desejado: PalestinaDOCUMENTO (ficha A.E.F., Arolsen 69312025; cópia em ../pesquisa/docs/)
16/08/1946Na lista oficial de Stamsried, Landkreis Roding, Baviera — "Stamsried Nr. 111", sozinhoDOCUMENTO (Arolsen 70200907)
1946Assiste à entrada e saída dos réus em Nuremberg, do lado de fora do portão. Cita Goebbels e Göring — Goebbels é anacronismo da memória (morto em maio/1945); Göring estava lá. INFERÊNCIA que agora fecha: Stamsried fica a ~100 km de Nuremberg, e ele estava na Baviera justamente durante o julgamentoENTREVISTA 108:48, 109:24 · INFERÊNCIA
04/07/1946Pogrom de Kielce: 42 sobreviventes assassinados. Nos meses seguintes, ~100.000 judeus deixam a PolôniaHISTÓRIA → 13-retorno-1945
~fim de 1946Trem para Paris. Primeira noite: hotel de décima categoria, polícia no meio da noite. Liberado por ter documento de ex-combatente — os que vinham dos campos eram devolvidos à PolôniaENTREVISTA 95:28, 95:51, 96:38
1946–47Trabalha três meses de graça para aprender a fazer calça. Depois consegue serviço numa firma exportadora; o Joint avaliza o crédito da primeira máquina de costura. Chega a ter uma pequena oficina, das sete da manhã à meia-noiteENTREVISTA 97:42–100:16
19/08/1947Passaporte polonês nº 074.893, expedido em Paris pelo Consulado PolonêsDOCUMENTO
1947Visto brasileiro em Paris, nº 2529DOCUMENTO
Um amigo a caminho dos EUA passa pelo Brasil levando o nome dele. Em dois meses vem resposta: um primo no Rio de Janeiro, o resto da família em Porto AlegreENTREVISTA 110:40

VII. Brasil, 1947–1950#

QuandoO quêFonte
18/09/1945Brasil promulga o Decreto-Lei 7.967, que condiciona a imigração à "necessidade de preservar e desenvolver, na composição étnica da população, as características mais convenientes da sua ascendência europeia"HISTÓRIA → 16-brasil-imigracao
06/12/1947Desembarca no porto de Santos, do vapor francês GROIX (Chargeurs Réunis), vindo de Le Havre via Casablanca e Rio — 3ª classe, sozinho, "alfaiate", destino declarado Porto Alegre. Na mesma lista de temporários: outros oito judeus poloneses vindos de Paris. Entra como temporário, com permanência até 06/06/1948 (art. 7º-A na lista; art. 34 na carteira — ambos do Dec.-Lei 7.967/1945)DOCUMENTO (lista de bordo, ../pesquisa/docs/; carteira de admissão)
Estima-se que 15 a 20 mil sobreviventes entraram no Brasil após 1945, boa parte com visto de turista ou documentos falsos, contornando a barreira consularHISTÓRIA
dez/1947–1948Chega por Porto Alegre; três meses de turista, prorroga por mais três, e passa a São PauloENTREVISTA 111:54
08/03/1948Carteira de admissão emitida no Rio de JaneiroDOCUMENTO
1948No Bom Retiro reencontra vizinhos de Kalisz, da mesma rua e do mesmo ramo do pai, e um Goldman que trabalhara para a família. Jantares de sábadoENTREVISTA 112:26
~1948–49Começa como todo imigrante: clientela — vendedor a prestaçãoENTREVISTA 114:23
~1949Conhece Clara pelo Macabi de São Paulo; a irmã dela morava ao ladoENTREVISTA 113:18
18/05/1950Edital de proclamas no Diário Oficial de SP: "natural da Polônia… alfaiate, filho de Her[z] Stobiecki e de dona Re[gina]"; a noiva, natural de CuritibaDOCUMENTO (DOE-SP, Judiciário p. 18 — achado 31/08/2026)
03/06/1950Casamento com Clara Schnaider. Foto do casamento preservada (o documento hebraico guardado com ela foi reidentificado como um noivado europeu pré-guerra — ver ../fontes/fotos/README.md)DOCUMENTO · ENTREVISTA 114:16

A contradição de 1940–1942, e o que foi adotado#

Ele dá duas versões incompatíveis do destino do trem que o levou de Białystok:

  • Em 41:16–42:41: dois meses de viagem "para a Ásia", chegando a Karaganda, no Cazaquistão.
  • Em 60:44–70:20: o primeiro destino foi um campo de trabalho que ele chama de "Kronstadt" (a fala foi confirmada pela passada dirigida de 30/08/2026; o lugar segue não identificado), fora da cidade, com uma comissão vinda de Leningrado; só depois da invasão alemã (junho de 1941) foi evacuado para a Sibéria; e só depois disso chegou à Ásia Central.

A cronologia acima adota a segunda versão. Três razões:

  1. A leva de 28–29/06/1940, que era especificamente a dos refugiados como ele, foi despachada sobretudo para Arkhangelsk, Vologda e Komi — o norte, não a Ásia Central.
  2. A menção a Leningrado só faz sentido geográfico no norte.
  3. O Exército de Anders só se formou na Ásia Central a partir de 1942, depois da anistia de agosto de 1941. Chegar a Karaganda em 1940 e só entrar no exército dois anos depois não fecha.

A hipótese mais econômica é que ele comprimiu, na primeira vez que contou, uma sequência de três deslocamentos em um só. Ele mesmo avisa: "Eu acho que me atrapalhei um pouquinho, depois eu conto" (36:09) e "que me atrapalha um pouquinho, não sei se foi depois ou um pouquinho antes" (85:03).

O problema de Stalingrado#

Em 50:26–51:35 ele diz ter chegado perto de Stalingrado, descreve a fome no cerco ("não achava mais nem um gato, nem um cachorro"), as trincheiras, e conclui: "Lá foi a primeira batalha contra os alemães que eles perderam."

Isso não fecha com o exército em que ele serviu. A 1ª Divisão Kościuszko só se formou em maio de 1943 — três meses depois do fim da batalha de Stalingrado (fevereiro de 1943). Nenhuma unidade polonesa sob comando soviético esteve lá.

Leituras possíveis, sem escolher nenhuma:

  1. Confusão de nomes. Ele viveu a primeira batalha da sua divisão em Lenino (out/1943), e pode ter absorvido, ao longo de cinquenta anos, o enquadramento popular de Stalingrado como "a batalha em que os alemães começaram a perder" — que é literalmente o que ele diz.
  2. Outra condição. Pode ter estado na região em batalhão de trabalho soviético antes de 1943.
  3. Memória emprestada. O relato da fome no cerco tem a textura de coisa ouvida, não vivida; mas o das trincheiras e do ferimento tem a textura de coisa vivida. Podem ser dois episódios distintos que se fundiram.

Detalhe a favor da leitura 1: ele descreve o inverno russo virando a batalha e o armamento pesado alemão congelando — narrativa canônica de Stalingrado, muito difundida no pós-guerra soviético, que era o ambiente em que ele serviu.

Nada disso desqualifica o depoimento. Ele acertou dezenas de detalhes verificáveis: a data do próprio nascimento, a proporção de judeus em Kalisz, a rua da loja, o nome de Błaszki, a proibição de emblemas de oficial no exército polonês sob comando soviético, o Joint, o decreto brasileiro. O que se vê aqui é uma memória de 83 anos, não uma invenção.