O que ele conta#
[34:30] "Me despedi dos meus pais e fui, porque ainda dava para passar para o lado onde estava a Rússia. Metade da Polônia era alemã, por causa do pacto, e a parte de cima era russa." [36:46] "Em Białystok eu estava como civil. Não pertencia a ninguém. Então eu procurava um jeito de sobreviver, procurava trabalho. Havia um restaurante; eu pedi, nem que fosse para lavar louça." [37:07] "E eles me deram um emprego. Trabalhei ali um tempo. Mas não demorou muito: eu estava andando na rua e chegaram dois soldados do exército russo, me pediram documento, e me levaram." [38:20] "Eu mostrava a certidão de nascimento. Eu nunca andava com o documento do exército."
O que se sabe#
Por que Białystok. Depois de 17 de setembro de 1939, a Polônia foi partida entre alemães e soviéticos. Białystok ficou do lado soviético e virou o principal ponto de concentração de refugiados judeus que fugiam da zona alemã. Chegaram dezenas de milhares. A cidade inchou.
A armadilha da "passaportização". As autoridades soviéticas exigiram que todos os refugiados aceitassem passaporte soviético e virassem cidadãos da URSS. Muitos recusaram — e por uma razão concreta: cidadãos soviéticos não podiam morar em zona de fronteira, e Białystok era zona de fronteira. Aceitar o passaporte significava ser removido da cidade. Recusar significava ficar sem documento válido.
Quem recusou foi deportado. As fontes registram que, no fim de abril de 1940, a polícia secreta soviética cercou todos os lugares onde os refugiados se escondiam — inclusive as casas de estudo e as instituições comunitárias —, prendeu a maioria, levou-os à estação ferroviária de Białystok e os embarcou em trens.
A grande leva veio depois. Ver 07-deportacoes-sovieticas-1940.
Onde bate e onde não bate#
Bate. O detalhe da certidão de nascimento é revelador: ele andava com o documento que provava quem era, mas não com o que provava ter sido soldado polonês — o que, sob ocupação soviética, era perigoso. Era um refugiado sem passaporte soviético, numa cidade onde isso já bastava para a deportação.
A ironia amarga que ele não comenta, mas que a história registra: essa deportação — brutal, arbitrária, movida por cálculo de segurança soviético — foi o que o salvou. Os judeus poloneses deportados para a URSS em 1940 tiveram taxas de sobrevivência incomparavelmente maiores que os que ficaram sob domínio alemão. Ele foi arrancado de Białystok em meados de 1940; a cidade seria ocupada pelos alemães em junho de 1941, e sua comunidade judaica, exterminada.