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Fita 1 — Kalisz e a infância · [00:00]–[29:34]#
| Tempo | Assunto |
|---|---|
| 00:00 | Abertura formal, apresentação da entrevistadora |
| 00:55 | Nome, data de nascimento, idade |
| 01:50 | Kalisz: 120 mil habitantes, 20–30% de judeus, perto de Lodz |
| 02:27 | O pai, Hersch, nascido em Błaszki. Avós paternos e maternos |
| 03:59 | A ocupação do pai: confecções. "Quando eu era mocinho, eu precisava trabalhar muito" |
| 04:40 | A última lembrança do pai — a convocação e a despedida na rua |
| 06:11 | A mãe, Regina |
| 07:08 | Educação religiosa: cheder, kosher, "família liberal" |
| 07:46 | Os irmãos: Shia, Marisha e o caçula (hoje sabemos: Szyja, Marjem e Majer — e houve uma quinta, Frania, 1917–1930; ver fontes/dados-biograficos.md) |
| 08:52 | Só ídiche em casa. Shabat |
| 09:30 | As sinagogas de Kalisz — a grande, de 5 mil lugares |
| 10:12 | O endereço: rua Parczewskiego 12, loja na Kanonicka |
| 10:41 | A vizinhança — judeus e não judeus, "não tinha portas fechadas" |
| 11:02 | O antissemitismo antes da guerra — bloqueio da porta da loja, medo de andar na rua |
| 12:28 | Bar mitzvah |
| 12:50 | Escola religiosa, gemeinde, até os 18 anos |
| 14:57 | Beitar e Jabotinsky. O sionismo da família |
| 17:38 | Maccabi — uniformes, bandeira, marchas para o piquenique |
| 18:14 | A comunidade judaica; situação econômica |
| 19:17 | Hitler no rádio; refugiados alemães. Os tios que fugiram para o Brasil |
| 20:54 | Por que a família não fugiu — e o zelador que denunciou o pai |
| 22:11 | Serviço militar 1937–38; a mobilização |
| 22:40 | Setembro de 1939 — a retirada, o abandono das armas pesadas, o trem bombardeado |
| 24:23 | Capturado pelos soviéticos. A fuga pela grama alta |
| 25:56 | Siedlce: os soldados acolhidos na sinagoga em Sukkot |
| 26:43 | A caminhada de 400–500 km de volta para casa |
| 27:41 | No trem: os alemães procuram judeus. Ele finge ser mudo |
| 28:46 | O comboio alemão na estrada — "o segundo milagre" |
Fita 2 — A volta, a fuga, a deportação · [29:48]–[60:08]#
| Tempo | Assunto |
|---|---|
| 31:34 | O terceiro milagre — o alemão que o encontra dormindo e o solta de madrugada |
| 32:32 | Chega em casa. "Encontrei minha toda a família" |
| 33:36 | Os avisos nas esquinas; ele propõe que todos fujam. Os pais recusam |
| 34:30 | A despedida dos pais. A combinação com o irmão |
| 34:57 | A travessia para Białystok, zona soviética |
| 35:26 | O que a sobrevivente lhe contou em 1945 — os pais morreram no campo |
| 36:43 | Białystok: emprego num restaurante, e a prisão na rua |
| 39:20 | O trem de deportação — 60 por vagão, beliches de madeira, buraco no chão |
| 40:45 | A sede. O trem inteiro gritando "água". Peixe salgado, sem água |
| 41:16 | Dois meses de viagem |
| 42:32 | Karaganda |
| 43:44 | Tashkent: a Páscoa católica. O oficial polonês manda barrar judeus na fila |
| 45:05 | "Eu sou soldado polonês, mas sou judeu. Eu não vou fazer isso." Preso e julgado |
| 46:00 | Ele ganha a causa. O oficial é transferido |
| 47:36 | O exército de novo: uniformes, comida, "cada soldado parecia um oficial" |
| 49:22 | A virada política; marcha ao lado do exército russo |
| 49:56 | Por que oficiais e soldados não usavam emblema — mataram os oficiais poloneses |
| 50:26 | Stalingrado — a fome, o cerco, "nem um gato, nem um cachorro" |
| 51:55 | As trincheiras. O inverno russo vira a batalha |
| 53:17 | Ferido na mão esquerda por estilhaço. Ele implora para não amputarem |
| 55:07 | Majdanek — os russos acabaram de esvaziar o campo |
| 55:46 | "Encontramos ainda tudo quente: ossos, montanhas de sapatos, montanhas de dentes" |
| 57:13 | Os sobreviventes: "a mesma coisa que uma sombra" |
| 58:03 | O que ele sabia de Auschwitz e do gás |
| 58:39 | Descrição do campo: torres, arames, barracas |
Fita 3 — O campo de trabalho, a Sibéria, a notícia · [60:25]–[91:06]#
| Tempo | Assunto |
|---|---|
| 60:44 | O primeiro campo de trabalho na URSS |
| 61:42 | A entrevista que lhe salva a vida — o oficial fala hebraico; ele mente sobre a profissão do pai |
| 62:49 | A oficina de costura montada do zero. A linha de produção improvisada |
| 64:00 | Reconhecidos como stakhanovistas: comida melhor, cama melhor |
| 65:33 | A rotina, as roupas, os guardas com baioneta |
| 67:41 | Os religiosos rezando escondidos — debaixo da escada. O castigo |
| 70:20 | Junho de 1941: os alemães atacam a URSS. Evacuação para a Sibéria |
| 71:25 | Sibéria: 40 abaixo de zero, barracão sem banheiro |
| 72:21 | "Eu me pergunto sozinho: que jeito eu sobrevivi? Eu acho que eu sobrevivi só para contar a história" |
| 73:09 | O conhecido religioso reencontrado na Sibéria — "foi um milagre também" |
| 75:45 | Ele parou de rezar. O que o pai lhe deu na despedida |
| 76:21 | O pacto anglo-soviético; a saída para a Ásia. Os que foram para Israel |
| 79:21 | Volta à Polônia com o exército |
| 79:40 | Majdanek em detalhe — os crematórios, os ossos, as montanhas de sapatos de criança |
| 81:42 | A ajuda que começa a chegar; o Joint |
| 84:20 | Como ele soube da família |
| 85:33 | "Todo mundo morreu, ela falou" — e a dúvida sobre a irmã |
| 86:04 | O zelador denuncia. O pai é atrelado à carroça no lugar do cavalo |
| 87:27 | A carta que chegou pedindo ajuda, quando ele mesmo não tinha nada |
| 88:23 | A volta à loja e à casa — o novo dono, a mulher que chora |
| 89:26 | "Eu procurava ele, eu queria vingança, mas não encontrei" |
| 90:13 | A medalha. "Sobrou só papel. Da minha família, só sobrou também só papel" |
Fita 4 — A fronteira, Paris, o Brasil · [91:21]–[121:39]#
| Tempo | Assunto |
|---|---|
| 91:38 | A baixa do exército em Lodz. "Eu fiquei na meia da rua: onde eu vou?" |
| 93:10 | A travessia da fronteira com vodca e cigarros |
| 95:01 | Frankfurt an der Oder; a Alemanha; o trem para Paris |
| 95:51 | A primeira noite em Paris: hotel de décima categoria, e a polícia |
| 96:38 | Legalizado por ter sido soldado — os que vieram dos campos foram devolvidos |
| 97:42 | Três meses trabalhando de graça para aprender a fazer calça |
| 98:26 | A amostra que ele capricha; a máquina comprada a prestação com aval do Joint |
| 100:07 | Das sete da manhã à meia-noite. Dois anos em Paris |
| 103:14 | Os amigos do Beitar que foram para a Haganah. Goldstein |
| 106:32 | O gueto de Lodz, vazio — "só se pisava nas fotos que tinha no chão" |
| 107:27 | A sinagoga de 5 mil lugares: "enquanto eu voltei, só vi chão" |
| 108:48 | Nuremberg — ele assiste à entrada e à saída dos réus |
| 110:40 | O amigo que leva o nome dele ao Brasil. O primo no Rio, a família em Porto Alegre |
| 111:54 | Chega como turista por três meses; prorroga; vai para São Paulo |
| 112:26 | Os vizinhos de Kalisz reencontrados no Bom Retiro |
| 113:18 | Como conheceu Clara — pelo Macabi |
| 114:23 | O começo no Brasil: clientela |
| 114:54 | Os três filhos, nome a nome; o genro |
| 117:06 | Os netos, um a um |
| 118:36 | "Eu me senti no mundo sozinho, sem ninguém. Será que eu vou ter família outra vez?" |
| 120:26 | "Onde estava Deus?" — a pergunta sem resposta |
| 121:14 | "Continuei a ser judeu — e judeu como raça, como povo" |
Fita 5 — Fé, fotografias, família reunida · [121:47]–[137:14]#
| Tempo | Assunto |
|---|---|
| 121:59 | Ele crê em Deus. A sinagoga da Hebraica |
| 122:46 | Radom — o sequestro dos judeus ricos por resgate, por volta de 1940 |
| 124:25 | O episódio mais marcante: o encontro com a sobrevivente |
| 124:51 | A irmã — fora do campo, talvez casada, talvez na Rússia. Nunca se soube |
| 125:58 | A mensagem para filhos e netos |
| 126:50 | As fotografias, narradas por ele |
| 127:25 | A foto da família de 1938 — "meus pais, meus irmãos e noivo da minha irmã" |
| 127:50 | "Meu irmão mais novo — fala a verdade, não me lembro o nome dele" |
| 128:36 | A foto da loja, com Herz na porta (1936–37) |
| 130:24 | Ele em Paris, trabalhando |
| 130:59 | "Essa foto é a mais linda do mundo" — ele e Clara |
| 131:36 | A bar mitzvah de um neto: todos identificados nome por nome |
| 133:28 | A medalha de bravura do exército polonês |
| 134:25 | A família reunida na sala, apresentada um a um |
| 136:10 | Clara fala |
| 136:49 | A filha fala — "Obrigada, pai" |
Cronologia reconstruída#
Mojsie não conta em ordem, e avisa disso. Esta é a ordem provável dos fatos.
| Quando | O quê | Onde no vídeo |
|---|---|---|
| 12/12/1914 | Nasce em Kalisz | 01:32 |
| anos 1920–30 | Cheder, escola da gemeinde, trabalho na loja do pai | 07:08, 12:50 |
| ~1927 | Bar mitzvah | 12:36 |
| anos 1930 | Beitar e Maccabi. Antissemitismo crescente | 14:57, 11:02 |
| 1937–1938 | Serviço militar no exército polonês | 22:11 |
| 25/07/1938 | A foto de família | 128:14 |
| set/1939 | Mobilizado. Kalisz é atacada nos primeiros dias | 04:40, 22:40 |
| set–out/1939 | Retirada até Varsóvia; capturado pelos soviéticos; foge | 23:43, 24:23 |
| out/1939 | Sukkot em Siedlce. Caminhada de 400–500 km | 25:56, 26:43 |
| out–nov/1939 | O trem com os alemães; o comboio na estrada; o alemão que o solta | 27:41, 28:46, 31:34 |
| fim de 1939 | Chega em casa. Última vez que vê os pais | 32:32, 34:30 |
| 1939–40 | Białystok, zona soviética. Trabalha num restaurante | 36:43 |
| ~1940 | Preso numa batida de rua e deportado | 41:41 |
| 1940 | Passa por Radom — o sequestro dos ricos | 122:46 |
| 1940–41 | Campo de trabalho na URSS; oficina de costura | 60:44, 62:49 |
| jun/1941 em diante | Evacuação para a Sibéria | 70:20 |
| 1941–42 | Sibéria | 71:25 |
| 1942 | Pacto anglo-soviético; saída para a Ásia Central (Karaganda, Tashkent) | 76:21, 42:32 |
| 1942 | O julgamento em Tashkent | 43:54 |
| 1942–43 | Reincorporado; marcha com o Exército Vermelho | 49:22 |
| 1942–43 | Stalingrado | 50:26 |
| ~1943–44 | Ferido na mão esquerda; um mês de hospital | 53:17 |
| jul/1944 | Majdanek, logo após a libertação | 55:07, 79:40 |
| 1945 | Passa por Kalisz. Descobre o que houve com a família | 84:20, 86:04 |
| 1945 | Gueto de Lodz, vazio. Varsóvia destruída | 106:32, 107:48 |
| 1945 | Condecorado; baixa do exército em Lodz | 90:13, 91:38 |
| 1945 | Registrado como sobrevivente em Kalisz (fonte: registro WJC 1945 — ver pesquisa/docs/) | — |
| ~inverno 1945–46 | Travessia da fronteira; Frankfurt an der Oder; "um tempo na Alemanha" | 93:10, 95:01 |
| jun–ago/1946 | Deslocado (DP) na Baviera: Heidenheim e Stamsried (fonte: fichas do Arolsen — ver pesquisa/docs/) | — |
| 1946 | Nuremberg — ele morava a ~100 km dali | 108:48 |
| ~fim de 1946 | Paris | 95:28 |
| 1946–47 | Dois anos em Paris, fazendo calças | 97:42 |
| 19/08/1947 | Passaporte polonês em Paris (fonte: documento, não a entrevista) | — |
| 06/12/1947 | Desembarca em Santos (fonte: documento) | 111:54 |
| 1948 | Porto Alegre e depois São Paulo. Bom Retiro | 112:16 |
| ~1949 | Conhece Clara pelo Macabi | 113:18 |
| 03/06/1950 | Casamento | 114:16 |
| 23/07/1952 | Habilitação de cocheiro (fonte: documento) | — |
| 1952, 1953, 1958 | Nascem os três filhos | 114:57 |
| 25/11/1997 | A entrevista | — |
| 18/10/2000 | Morre em São Paulo, aos 85 anos | — |
Contradição a resolver#
Em 41:33–42:41 ele diz que o trem que o levou de Białystok foi direto para Karaganda, na Ásia Central, em dois meses. Em 60:44–70:20 descreve o primeiro destino como um campo de trabalho perto de Leningrado, de onde só foi evacuado para a Sibéria quando os alemães atacaram a URSS, em junho de 1941 — e só depois disso chegou à Ásia Central. As duas versões não cabem juntas.
A segunda é mais detalhada e mais provável: bate com o funcionamento real das deportações soviéticas de 1940 e com a formação do Exército de Anders na Ásia Central a partir de 1942. A cronologia acima segue essa leitura, mas isto é interpretação, não o que ele diz.
Os milagres#
Ele organiza a própria sobrevivência como uma contagem de milagres. Só nomeia dois em voz alta — o segundo (28:46) e o terceiro (31:34) — e nunca diz qual foi o primeiro, nem continua a série depois. Vale ouvir esses trechos: é a estrutura que ele mesmo dá à história.