Este arquivo explica o momento mais extraordinário da entrevista.
O que ele conta#
[76:21] "Depois da Sibéria fomos para a Ásia (...) a Inglaterra fez um pacto com a Rússia para nos retirar de lá e levar para a Ásia." [76:38] "Mas havia muita gente que não era soldado. Eram mais velhos, um pouco doentes. Esses eles mandaram para a Inglaterra e para Israel. (...) a maioria desses judeus ficou em Israel." [48:16] "Treinar naquele exército era uma beleza. Nos deram uniformes — cada soldado parecia um oficial. Deram roupa de baixo, que a gente não tinha. (...) A comida já era outra. A gente abriu os olhos."
E então, o episódio de Tashkent:
[43:54] "Era uma Páscoa — não a judaica, a católica. E o exército convocou todos os poloneses que estavam na cidade, que se chamava Tashkent, para servir um almoço de Páscoa." [44:32] "E calhou de eu e mais alguns soldados ficarmos encarregados de manter a ordem (...) com o povo na fila para o almoço." [44:50] "De repente vem um oficial e me diz: 'Olha, nenhum judeu você pode deixar entrar nessa fila. Se tiver algum na fila, tire.'" [45:05] "Então eu falei: 'Olha, eu sou soldado polonês, mas sou judeu. Eu não vou fazer isso.'" [45:15] "Ele chamou dois soldados, tiraram de mim tudo o que era munição e me levaram preso. Por insubordinação." [45:43] "No julgamento eu falei: 'Soldado é igual a oficial. Eu lutei contra os alemães igual a um oficial. Eu podia morrer igual a ele.'" [46:00] "No final do julgamento, o oficial é que foi transferido daquela cidade. E eu fiquei livre outra vez. Eu ganhei a causa."
O que se sabe#
A anistia. Com a invasão alemã da URSS em junho de 1941, Stálin e o governo polonês no exílio firmaram o acordo Sikorski–Maiski. Em 12 de agosto de 1941, um decreto de anistia libertou prisioneiros de guerra, detidos e deportados poloneses. Entre agosto de 1941 e dezembro de 1942, 90.662 judeus poloneses foram libertados de campos e assentamentos especiais.
O "pacto com a Inglaterra" que ele menciona é essa negociação, mediada pelos britânicos.
O Exército de Anders. Formou-se sob o general Władysław Anders. No início de 1942, as tropas foram deslocadas para as repúblicas soviéticas do Uzbequistão, Quirguistão e sul do Cazaquistão — Tashkent está exatamente aí. O recrutamento foi retomado em 6 de fevereiro de 1942.
E aqui está o ponto. O antissemitismo no Exército de Anders é um fato historiográfico documentado, não uma queixa isolada:
- As autoridades soviéticas impuseram a proibição de admitir judeus que, em novembro de 1939, residissem nos territórios da Segunda República Polonesa anexados pela URSS.
- Muitos judeus foram recusados sob o pretexto de "saúde ruim". O acesso a unidades técnicas e à força aérea foi restringido.
- Houve discriminação e maus-tratos desde o início, por oficiais e por colegas: judeus tratados como soldados de segunda classe, desconfiança ostensiva, insultos.
- Os números falam: no verão de 1941, antes da linha antissemita de recrutamento, os judeus eram cerca de 40% dos alistados. Na evacuação, eram 6.000 — 5% dos soldados.
A saída pelo Irã. Entre março e setembro de 1942, o Exército de Anders deixou a URSS pelo Irã, rumo à Palestina e depois à Itália. Mojsie não foi. Ele permaneceu na URSS — e por isso acabaria no exército de Berling (ver 10-berling-lenino).
Onde bate e onde não bate#
A cena que ele conta é, historicamente, altamente plausível — e é isso que a torna importante. Um oficial polonês mandando excluir judeus de uma distribuição de comida do exército, em Tashkent, em 1942, não é anomalia: é a política de recrutamento e o clima documentado daquele exército, aplicados numa fila de almoço.
O que não é comum é o desfecho. Ele se recusou, foi preso, foi a julgamento sem advogado — e o tribunal decidiu a favor dele, transferindo o oficial. É um resultado surpreendente, e ele mesmo sublinha: "eu ganhei a causa".
Datação: a Páscoa católica de 1942 caiu em 5 de abril. Se a cena aconteceu no primeiro ano deles na Ásia Central, é essa a data provável. Não confirmado.
Um detalhe menor que não fecha: ele diz que os inaptos foram mandados "para a Inglaterra e para Israel". Os civis e inaptos evacuados com o Exército de Anders foram levados sobretudo ao Irã, e de lá muitos à Palestina — que ele, falando em 1997, chama de Israel. É anacronismo de linguagem, não erro de fato.