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The fate of the Jews of Kalisz

O destino dos judeus de Kalisz — onde a família morreu

This notebook is in Portuguese, as written during the research. Translation follows in stages, after the first published version.

File
contexto/12-destino-judeus-kalisz.md
Updated
2026-09-01
Terms of use
Written by the family with AI assistance, August–September 2026. The site's source of truth.

Este é o arquivo mais importante do dossiê. É a pergunta que a família carrega há oitenta anos, e que a entrevista responde de forma mais direta do que se imaginava.

O que ele diz — as três passagens#

1. Ao narrar Majdanek, em 1944:

[55:37] "E nós ocupamos o lugar e dormimos nas mesmas camas onde eles tinham dormido. E os meus pais, e toda a minha família, morreram ali."

2. Ao contar o encontro com a vizinha, em 1945:

[35:26] "Eu soube da história (...) quando eu voltei em 45 com o exército, passamos outra vez minha cidade, eu encontrei uma sobrevivente e ela me contou. Ela me contou que estivera junto no campo com os meus pais. Morreram todos — no campo morreram todos."

3. E de novo, mais adiante:

[85:33] "Encontrei essa sobrevivente e perguntei por eles. Ela disse que tinha estado com os meus pais e meus irmãos na hora da morte. Todo mundo morreu, ela falou. [85:48] A única coisa de que ela não tinha certeza era de uma irmã minha, que estava fora do campo."

O que se sabe sobre para onde foram os judeus de Kalisz#

A comunidade de Kalisz teve dois destinos completamente diferentes, e é isso que decide a questão.

Caminho A — os expulsos para o Governo Geral (nov/1939 – fev/1940)#

A esmagadora maioria: dez trens entre 2 e 14 de dezembro de 1939, com 15.862 pessoas — os dois primeiros, de 02/12, para Lublin e Sandomierz; os demais para Kałuszyn, Łuków, Sarnaki, Sokołów Podlaski, Węgrów, Łosice, Rzeszów e Kraków; e mais levas para Góra Kalwaria, Varsóvia, Włodawa, Rembertów. Ver 05-warthegau-expulsoes.

Quem foi parar no distrito de Lublin foi apanhado, dois anos depois, pela Aktion Reinhard. O que a pesquisa de 30/08/2026 trouxe de novo é o detalhamento desse funil (Dean/USHMM, via Wirtualny Sztetl):

  • ~2.500 judeus de Kalisz foram reassentados no distrito de Lublin — cerca de mil deles registrados no Judenrat da própria cidade de Lublin.
  • Quando começou a Aktion Reinhard, os deportados de Kalisz — vistos como o "elemento mais pobre", sem raízes locais — estavam entre os primeiros embarcados de Lublin para Bełżec (17/03–16/04/1942). Ao menos 3.000 kaliszanos do distrito morreram em Bełżec; cerca de 200, levados via Włodawa, morreram em Sobibór.
  • E, textualmente: "só uma pequena parte foi parar no campo de concentração de Majdanek."
  • Mas essa parte existiu e está documentada na ponta da sobrevivência: dos 337 retornados de campos que o Comitê Judaico de Kalisz registrou no pós-guerra, 5 voltaram de "KL Lublin (Majdanek)".

Caminho B — os que permaneceram no Warthegau#

Uma minoria. Foram concentrados, e em 1941–42 enviados a Poznań para trabalho forçado, ao gueto de Łódź e ao centro de extermínio de Chełmno (Kulmhof), onde eram mortos em caminhões de gás. Em 1942 as comunidades do Warthegau, exceto Łódź, foram liquidadas.

O que pesa a favor de Majdanek#

  1. Ele diz — e talvez duas vezes. Não é tradição oral degradada: está na fita, na voz dele, em 1997 — "e os meus pais, e toda a minha família, morreram ali", dita dentro da narração de Majdanek [55:43]. E a passada dirigida de 30/08/2026 sobre o trecho [88:13], antes ilegível ("Todos morreram no [?]"), leu de forma consistente um topônimo terminado em "-danek" — compatível com uma segunda menção a Majdanek, agora fora da âncora associativa da visita (ver as notas de transcricao/01-verbatim.md).
  2. A geografia fecha. Os dois primeiros trens de Kalisz, de 02/12/1939, foram para Lublin e Sandomierz. Majdanek fica em Lublin. A família morava numa rua central com loja — o perfil visado na primeira leva de expulsões, a de 10 de novembro de 1939.
  3. Kalisz está documentada entre as origens das vítimas de Majdanek — e a presença de kaliszanos no campo tem agora um número na ponta da sobrevivência: 5 dos 337 retornados registrados pelo Comitê Judaico de Kalisz voltaram de Majdanek.
  4. A vizinha sobreviveu — e isso é o argumento discriminador. Ela esteve "junto no campo" com os pais dele, viu a morte deles e voltou a Kalisz para contar. Bełżec — para onde foi a maioria dos kaliszanos de Lublin — teve sete sobreviventes conhecidos em toda a sua existência; Treblinka e Sobibór, algumas dezenas. Majdanek teve milhares — cinco deles kaliszanos que voltaram. Se a testemunha existiu e voltou, o campo com sobrevivência possível é Majdanek. (Não é possível saber se ela é uma das cinco registradas — o relato dele não a nomeia.)
  5. A tradição familiar guardou "Majdanek" de forma independente, atravessando três gerações.

O que exige cautela#

  1. Ele nunca diz que a vizinha nomeou o campo. Ela disse "na concentração". O nome Majdanek aparece na fala dele — e ele esteve em Majdanek, o que é uma âncora associativa poderosa. Não é possível separar, pelo áudio, o que ela contou do que ele concluiu. (A possível segunda menção em [88:13] atenua, mas não elimina, essa objeção — é leitura de máquina sobre áudio ruim.)
  2. Não há documento. Nenhuma lista, nenhum registro, nenhuma ficha com os nomes deles.
  3. A estatística aponta para Bełżec. Dos ~2.500 kaliszanos do distrito de Lublin, ao menos 3.000 (contando todo o distrito) morreram em Bełżec, para onde foram os primeiros transportes de Lublin (março–abril de 1942) — e a fonte diz que "só uma pequena parte" chegou a Majdanek. Se a família estava na cidade de Lublin em 1942, o destino estatisticamente mais provável era Bełżec — é exatamente contra essa estatística que pesa o argumento da vizinha sobrevivente (item 4 acima): de Bełżec praticamente ninguém voltou para contar.

Conclusão honesta#

Majdanek é a hipótese mais bem sustentada, e a única que ele próprio afirma. Ela é coerente com a rota de expulsão de Kalisz (trem de 02/12/1939 para Lublin), com a presença documentada de kaliszanos em Majdanek (inclusive cinco sobreviventes que voltaram), e — de modo especialmente forte — com o fato de que uma testemunha sobreviveu para contar. A pesquisa de 30/08/2026 tornou o quadro mais nítido dos dois lados: a estatística do funil de Lublin aponta para Bełżec; a existência da testemunha aponta para Majdanek. Os dois campos ficam no mesmo distrito, no mesmo raio do mesmo crime — a Aktion Reinhard. Onde quer que tenha sido, foi ali, naquele ano de 1942.

Mas é uma conclusão convergente, não uma certeza documental. A diferença importa e deve ser mantida em qualquer coisa que a família publique: "segundo o próprio Mojsie, e de forma compatível com o que se sabe da deportação de Kalisz, a família foi morta em Majdanek" — e não "a família foi morta em Majdanek" como fato provado. Se um dia se quiser um grau a mais de precisão, os caminhos que restam são o banco de prisioneiros do Museu de Majdanek e o memorial de nomes de Bełżec (ver ../pesquisa/proximos-passos.md).

O achado sobre o Yad Vashem#

Busca feita no Banco Central de Nomes das Vítimas da Shoá (Yad Vashem), em 29/08/2026:

Herz, Regina, Shia, Marisha e o irmão caçula Stobiecki não estão registrados. Nenhum deles.

O banco tem cerca de 4,5 a 5 milhões de nomes dos cerca de 6 milhões de assassinados. A família de Mojsie está entre o milhão que continua sem nome. Ele era o único sobrevivente do núcleo, e aparentemente nunca preencheu uma Página de Testemunho.

Buscando Stobiecki + Kalisz, aparecem cinco vítimas — de outra família:

NomeNasc.ProfissãoMorte
Rafu Stobieski1890alfaiateAuschwitz, câmara de gás
Leah Stobieski1895professoraAuschwitz, câmara de gás
Sonia Stobieski1925alunaAuschwitz, câmara de gás
Bronia Stobieski1929alunaAuschwitz, câmara de gás
Fania Stobitzki (n. Mordovitz)dona de casa

As quatro primeiras são um núcleo — pai, mãe e duas filhas —, registradas por Rachel Dorison Rothstein, neta. As fichas de Fania foram submetidas por Pola Lipshitz Marmelshtein, sobrinha.

Rafu era alfaiate, em Kalisz, com o mesmo sobrenome. Mojsie diz em [03:33] que o pai tinha quatro irmãos e uma irmã, e que os irmãos moravam na mesma cidade; e em [129:29] mostra a foto de "um irmão do meu pai", de quem diz "ele quase criou nós". Rafu Stobieski é um candidato plausível a ser esse tio — mas isso é hipótese, não parentesco provado.

A hipótese virou quase certeza em 30/08/2026, em dois passos:

  1. A Księga Adresowa Polski de 1929 lista dois alfaiates Stobiecki em Kalisz — "Stobiecki H., Nadwodna 12" (Herz) e "Stobiecki R., Złota 1".
  2. A kartoteka de moradores de Kalisz (AP Kalisz, sygn. 4463) tem o cartão de Rafał Ber Stobiecki, nascido 02/02/1890 em Błaszki — irmão documentado de Hersz (mesmo pai, Fajbuś), morando na Złota 14, casado com Lenka(?), com filhas Cyrla (~1924) e Brajna (~1934), entre outros. Compare com as fichas do Yad Vashem: Rafu Stobieski, 1890, alfaiate — mulher Leah, filhas Sonia (1925) e Bronia (1929), todos mortos em Auschwitz. Mesmo ano de nascimento, mesma profissão, mesma rua, nomes das filhas compatíveis (Cyrla→Sonia? Brajna→Bronia — datas de cartão são aproximadas). Rafu era, com altíssima probabilidade, o tio de Mojsie — possivelmente o da foto de [129:29], "ele quase criou nós".

E os destinos das duas casas pareciam espelhar os dois caminhos da comunidade: a família de Hersz, expulsa em dezembro de 1939, no caminho A (Lublin); e a rua Złota — onde Rafał morava — é exatamente onde funcionou o gueto residual de Kalisz (Złota 13/16/18, 1940–42), liquidado para o gueto de Łódź em julho de 1942, de onde os últimos deportados foram para Auschwitz, onde as fichas do Yad Vashem dizem que Rafu, Leah, Sonia e Bronia morreram. (A identificação Rafał=Rafu segue formalmente uma inferência — falta um documento que ligue as grafias — mas cada peça é documental.)

Adendo de 31/08/2026 — Annopol: as listas foram lidas por inteiro, e o quadro mudou. A primeira sondagem achou um "Stobiecki Rafał" em listas de ajuda a refugiados em Annopol (Janów Lubelski, distrito de Lublin). Uma segunda passada conseguiu extrair, pela API do próprio Yad Vashem, os 1.741 registros completos das onze listas (catálogo, D17). O resultado:

  • Rafał Stobiecki, refugiado, "3 membros na família" — em cinco listas, de 15/07/1940 a 12/04/1941; depois some.
  • Em 05–10/04/1941, uma família de cinco é deportada da cidade de Lublin para Annopol (grafada "Stobcki" na fonte): Eisik/Eizyk, Freidel, Izrael, Rachel e Syza. Quatro desses nomes batem com o cartão de Kalisz do tio Ajzyk (karta 225: Ajzyk × Frajdel, filhos Izrael, Rachel…) — e "Syza"≈Szyja seria o quinto filho, com o nome do bisavô.
  • "Ajzyk Stobiecki" aparece então nas listas de ajuda de Annopol de 30/05 a 31/10/1941.
  • Hersz, Regina, Marjem, Szyja e Majer NÃO aparecem em nenhuma das onze listas.

O que isso estabelece (e o que não): os dois irmãos de Hersz — Rafał e Ajzyk — estavam em Annopol em 1941, tendo passado pela cidade de Lublin; ou seja, foram expulsos de Kalisz para o distrito de Lublin como a historiografia descreve, e como a família de Hersz. Mas a família nuclear não está nas listas de Annopol — onde Hersz e Regina passaram 1940–42 (Lublin cidade? outra localidade do distrito?) continua sem documento. Duas pistas novas, da mesma varredura:

  1. "Moses Stobjecki" morto em Majdanekverificado em 31/08 e descartado como parente direto: o "livro memorial" é a Księga zmarłych więźniów. Majdanek 1942 (a edição científica do registro de óbitos do próprio campo, 18/05–29/09/1942, original sygn. I d 19 do Museu de Majdanek), e a linha diz: prisioneiro nº 8875, nascido 13/12/1919 em Łódź, morto 31/07/1942. Não é de Kalisz. (Uma hipótese lateral testável: o tio Szaja Majer vivia em Łódź desde 1917 — um filho "Moses" nascido lá em 1919 seria cronologicamente possível; especulação, registrada como tal.)
  2. A varredura completa do registro de óbitos de Majdanek de 1942 (6.533 nomes) achou 13 pessoas de Kalisz — nenhum Stobiecki. Este negativo não refuta a hipótese Majdanek: o registro cobre só 18/05–29/09/1942, e quem era gaseado na chegada — a norma para mulheres, crianças e homens não selecionados para trabalho — em geral nem era registrado. Mas é um negativo honesto, e vai documentado.
  3. O morto de Ebensee é o PRIMO Ajzyk, não o tio — resolvido em 01/09/2026 (segunda passada). A ambiguidade dos dois Ajzyk de 1901 se desfez: os registros do gueto de Łódź têm o Ajzyk nascido em Błaszki em 03/02/1901 (o primo, filho de Jankiew Wołek), correeiro, Drewnowska 21/33, com esposa Mariem Ita e três filhos — e o USHMM liga esse morador do gueto ao prisioneiro de Mauthausen nº 136293 (o número do cartão de Ebensee), via o livro de óbitos do campo, com o elo intermediário "Eisik Stobiecki, n. 1901" numa lista do Kommando Wolfsberg (Gross-Rosen, nov/1944) — a rota clássica Łódź → Auschwitz (ago/1944) → Gross-Rosen → Mauthausen → Ebensee. O cartão com a cruz vermelha em ../pesquisa/docs/ é a morte do primo. O tio Ajzyk (de Kalisz, com Frajdel) volta a ter destino aberto após outubro de 1941 em Annopol — o desfecho provável da comunidade de Annopol foi Bełżec, outubro de 1942.

E a pista nova mais importante — Lublin, verificada na base pública do USHMM (01/09/2026): o Initial Registration of Lublin's Jews (out/1939–jan/1940) — exatamente a janela da chegada do trem de Kalisz de 02/12/1939 — indexa "Stobiecki, Ajzyk" e "Stobiecki, Izrael" (o par bate com o tio Ajzyk e o filho Izrael do cartão de Kalisz; consistente com a deportação Lublin→Annopol de abr/1941). E o City of Lublin Death Incidents Register (nov/1941–jan/1942) indexa "Stobiecki, Aser Hersz" — um Stobiecki morto no gueto de Lublin nessa janela. "Aser Hersz" ↔ "Hersz Aron": a inversão e a troca Aron/Aser são plausíveis num registro manuscrito indexado — é o candidato mais direto já encontrado a ser o próprio pai de Mojsie, morto no gueto antes da liquidação de março–abril de 1942. Não confirmado: pode ser outro homem do clã. A verificação é simples e está ao alcance da família: o Document Request Form do USHMM (gratuito, remoto) envia a cópia digitalizada dos três registros — idade e endereço decidem. Pedido pronto: ../pesquisa/pedidos-prontos.md, item 10. Se confirmado, a resposta central se refinaria: Hersz morto no gueto de Lublin (fome/doença, 1941); Regina e as crianças levados na liquidação de 1942 — para Bełżec ou Majdanek, os dois destinos dessa liquidação; e o relato da vizinha ("estava com eles no campo") seguiria valendo para eles.

A identificação Rafał-de-Annopol = tio Rafał Ber segue provável, não provada (as listas não trazem idade nem naturalidade; os scans — pasta AJDC de Annopol, online no site do JDC — e as pastas ŻSS no ŻIH podem trazer).

Consequência para as Páginas de Testemunho: se Rafał=Rafu, a submissora das fichas dele — Rachel Dorison Rothstein, neta de Rafu — é prima em segundo grau dos netos de Mojsie. O contato, se a família um dia quiser, é decisão da família.

Buscas por variantes de "Hersz Stobiecki" retornam registros de Łask, Łódź, Pajęczno e Wieluń — todas na mesma região de Błaszki, onde nasceu Herz. O sobrenome é dali. Nenhum é de Kalisz.

Observação de método: os registros do Yad Vashem consultados são memoriais públicos. O nome da submissora aparece aqui porque é parte do registro público. Qualquer contato é decisão da família, não deste dossiê.

O que decorre disso — e é acionável#

A família pode preencher Páginas de Testemunho para Herz, Regina, Shia, Marisha e o irmão caçula.

Vocês têm hoje mais material do que a maioria de quem faz isso: nomes, cidade natal, endereço, profissão do pai, nomes dos avós, uma fotografia datada de 1938 com todos eles, e o testemunho em vídeo do único sobrevivente do núcleo, gravado em 1997. Do caçula não se tem o nome — mas o registro aceita "nome desconhecido" com a descrição, e ele existiria no memorial.

É a única coisa neste projeto inteiro que muda alguma coisa fora da família.

Ver ../pesquisa/proximos-passos.md.

Fontes#