ZeideI survived only to tell

The Interview

São Paulo, November 25, 1997. Ita Liberman interviews Mojsie Izrael Stobiecki for the Survivors of the Shoah Visual History Foundation — interview 35919, 2h17min, in Portuguese. Click any [mm:ss] to watch that moment. The transcript is in Portuguese (the language of the interview); an English translation is under way.

00:00 / 2:17:14

The video is served from the family's own archive.

How to read
The verbatim track is the historical document: what was said, as it was said — his Portuguese is preserved, nothing was corrected. The edited track is the same content in corrected Portuguese, for reading. [?] marks genuine doubt: nothing was guessed. how to read this transcript

FITA 1 — Kalisz, a infância, o começo da guerra[00:00] – [29:34]

ITA

Dia 25 de novembro, 1997, entrevista com o Sr. Moise Israel Stobiecki. Meu nome é Ita Liberman, estamos em São Paulo, Brasil, o idioma é português.

ITA

Hoje é dia 25 de novembro de 1997. Meu nome é Ita Liberman. I-T-A, L-I-B-E-R-M-A-N. Vou entrevistar o senhor Moise Israel Stobiecki. Estamos em São Paulo, Brasil, português.

ITA

Por favor, queira se apresentar, o seu nome inteiro.

MOJSIE

Meu nome é Moisés Israel Stobiecki.

ITA

Você pode soletrar, por favor?

MOJSIE

Moisés é M-O-I-J-E-S. Israel, I-Z-R-A-L. Stobiecki é S-T-O-B-I-E-C-K-I.

ITA

Qual a data do seu nascimento?

MOJSIE

Data do meu nascimento, 12 de 12, 1914.

ITA

O senhor tem quantos anos hoje?

MOJSIE

Eu vou fazer dia 12 de dezembro, mês que vem, 83 anos vou fazer, dia 12 de dezembro.

ITA

Que cidade o senhor nasceu?

MOJSIE

Eu nasci na cidade, na Polônia, que se chama Kalisz.

ITA

Você pode soletrar, por favor?

MOJSIE

K-A-L-I-S-Z.

ITA

É uma cidade grande?

MOJSIE

Média, uma cidade média, mais ou menos de 120 mil habitantes. Era mais ou menos 20, 30% de judeus.

ITA

Fica perto de que outra cidade maior?

MOJSIE

Lodz.

ITA

Qual o nome do seu pai?

MOJSIE

O nome do meu pai é Hersch. H-E-R-S-E.

ITA

Sobrenome?

MOJSIE

S-T-O-B-I-E-C-K-I.

ITA

E de onde ele é? De que cidade?

MOJSIE

Onde meu pai nasceu, chamava 30 quilômetros de distância da nossa cidade, chama Błaszki.

ITA

E o senhor se lembra dos seus avós paternos, dos pais dele?

MOJSIE

Eu me lembro muito bem, quando eu era mocinha, menino ainda, eles moraram 30 quilômetros de distância da nossa cidade, na cidade de Błaszki. E eles também, era um comércio pequeno que eles viveram lá.

ITA

E o senhor tinha bastante contato com eles?

MOJSIE

Como os avós, quando eram feriados, sempre a gente se encontrava.

ITA

A família do seu pai era grande?

MOJSIE

Era grande, tinha quatro irmãos e uma irmã.

ITA

A família do seu pai?

MOJSIE

A família do meu pai, é.

ITA

E moravam na mesma cidade?

MOJSIE

Moravam, os irmãos moravam na mesma cidade. Só irmã morava na outra cidade.

ITA

Então o senhor tinha, jovem, tinha um convívio grande com a família do seu pai?

MOJSIE

Com a família, muito.

ITA

E qual era a ocupação do seu pai?

MOJSIE

Ocupação do meu pai, era indústria também de roupas feitas. E no começo era muito difícil, porque quando eu era mocinho, eu precisava trabalhar muito. Mas com o tempo, meu pai, com muito trabalho, eu sempre ajudando, nós progredimos um pouquinho. E bastante depois, antes da guerra, a gente estava com uma loja, morávamos no mesmo prédio, e estava muito bem.

ITA

Qual é a lembrança mais forte que o senhor tem do seu pai?

MOJSIE

Mais lembrança do meu pai, quando eu... Convocaram eu, primeiro já, depois, no exército, para a guerra. Nós estivemos 30 quilômetros na fronteira com a Alemanha. Era de 30 quilômetros. E o primeiro passo que a Alemanha fez foi na nossa cidade de Kalisz, que nós estivemos perto, numa floresta. Infelizmente, você ia deixar tudo, só pegar coisa na mão e ir fugindo, porque não dava tempo. Chegamos na minha cidade e eu encontrei uma pessoa perto da minha rua, onde eu morava, e eu pedi para ela: "Por favor, eu moro nessa rua e avisa para meu pai que eu estou passando aqui." E ele fez esse favor, foi na minha casa e avisou. Demorou mais ou menos uma hora, meu pai já estava me procurando e me trouxe [tefilín?] e pouquinho dinheiro. E assim eu fui para a guerra.

ITA

Bom, vamos voltar quando o senhor era criança. Me fala da sua mãe. Qual era o nome dela?

MOJSIE

O nome da minha mãe eu conheci como Regina. Ela sempre ajudava junto com nós, todo mundo trabalhava para o futuro.

ITA

E qual era o nome de solteira dela?

MOJSIE

Grodans.

ITA

E os avós maternos, o senhor tinha contato?

MOJSIE

Nós tivemos contato.

ITA

Eles moravam na mesma cidade?

MOJSIE

Não, eles moravam mais ou menos 30 quilômetros, chamava Błaszki.

ITA

Os pais da mãe? Os avós maternos?

MOJSIE

Os avós maternos, chamam meus avós.

ITA

E a sua mãe, o senhor, ela ajudava? Como é que era a educação religiosa que o senhor recebeu?

MOJSIE

Na educação religiosa, na minha casa, eu era criança e me deram no cheder, na escolinha, para eu aprender a rezar. E nós estamos acompanhando todos, a religião, tudo direito, kosher, mas não é ortodoxo. Nós éramos uma família liberal.

ITA

O senhor tinha irmãos?

MOJSIE

Eu tinha mais dois irmãos e uma irmã.

ITA

Fala o nome deles, por favor.

MOJSIE

Meu irmão mais novo se chama Shia. O mais novo irmão que tinha para 7, 8 anos...

ITA

E tinha uma irmã também?

MOJSIE

Como?

ITA

Tinha irmã também?

MOJSIE

Tinha irmã também, Marisha.

ITA

Marisha.

MOJSIE

Esse nome em polonês chama Marisha.

ITA

O senhor é o irmão mais velho?

MOJSIE

Eu sou o irmão mais velho.

ITA

A diferença de um para o outro era diferente?

MOJSIE

Mais ou menos dois anos.

ITA

E do menor era uma diferença?

MOJSIE

Do menor a diferença era muito grande. Tinha mais ou menos sete, oito anos.

ITA

Quando que ele tinha sete, oito anos?

MOJSIE

No tempo da guerra.

ITA

Que língua vocês falavam em casa?

MOJSIE

Yiddish. Só Yiddish.

ITA

Vocês respeitavam o Shabat?

MOJSIE

Muito. Chegou a sexta-feira, quando começou a pouquinho só, mais ou menos acabando o dia, a gente fechava tudo, não tinha mais negócio nenhum. Shabat era Shabat. Fomos sexta-feira no shil, sábado fomos [rezar?] no shil, era muito...

ITA

O senhor lembra em que shil o senhor ia?

MOJSIE

Sim, nós tivemos tudo lá na minha cidade. Estava um grupo grande da minha cidade onde meu pai nasceu, o Błaszki, e todo mundo fizeram um shil lá de amigos, parentes, e sempre frequentamos esse shil. Mas nós tivemos nessa nossa cidade, Kalisz, um shil muito grande, de 5 mil lugares. Tinha uma cheia de [?], Yiddish, alemães, que frequentaram cada um dos Yiddish, quando se juntaram juntos sempre.

ITA

O senhor lembra o endereço da sua casa?

MOJSIE

Sim, eu lembro. O endereço da minha casa era a rua Parczewskiego, número 12. Do lado onde nós tivemos uma loja de confecções, chamava Kanonicka. E morávamos no segundo andar, no mesmo prédio.

ITA

Esse foi o seu endereço de sempre?

MOJSIE

Sim, sempre foi esse endereço.

ITA

Como era a vizinhança?

MOJSIE

A vizinhança era muito boa. Lá não tinha portas fechadas. Tinha como família, como uma família no prédio. Estava muito bom.

ITA

Eram todos judeus?

MOJSIE

Não. Eram judeus e não judeus. Mas estávamos muito bem. Mas a única coisa, fora de... nós tivemos uma loja embaixo, era muito, antes da guerra, era muito triste. Porque o antissemitismo era muito grande. E quando chegou a abrir comércio, vieram, se encostaram nas portas, não deixaram entrar nenhum cliente. O antissemitismo começou até... começamos a ter medo de andar na rua. E era já, esperamos a guerra, mas não com Hitler, com outro jeito. Infelizmente aconteceu isso.

ITA

Quando que o senhor começou a sentir esse antissemitismo?

MOJSIE

Eu comecei a sentir antissemitismo quando eu já era moço, quando eu já passeava. Tinha um parque muito lindo. Estamos passeando, já sentimos que mexeram com a gente, não? Um religioso não podia andar na rua, que tinha barba e esse uniforme de Hassidim. Eles sofreram muito. Era muito... Sentiram-se muito castigados já, porque eram judeus.

MOJSIE

Eu me lembro do meu bar mitzvah com 13 anos, que fomos no shil, fizemos uma festa linda e me senti muito feliz, como responsável para o futuro.

ITA

O senhor frequentou escola?

MOJSIE

Eu frequentei uma escola religiosa, até era hebraico, era em Yiddish, rezando, mas nome, infelizmente, não me lembro.

ITA

E além dessa, o senhor fez outra escola também? Ou só essa?

MOJSIE

Não, só essa.

ITA

E o que... o senhor só aprendeu Yiddish, hebraico, e o senhor tinha aulas de polonês também?

MOJSIE

Também tinha aula de Yiddish, polonês, e rezar, porque em hebraico também a gente aprendeu.

ITA

O senhor não frequentou nenhuma escola do governo, nenhuma escola pública?

MOJSIE

No começo, onde a gente morava, encostado, não era de governo, era de sociedade. Não era de sociedade, era de gemeinde. E lá tinha uma escola quando começava, quando a gente sai da casa com sete anos para entrar, e lá a gente entrava. De lá, quando eu fiquei um pouquinho mais idade, quando eu acabei, eu frequentei já a escola maior.

ITA

Era escola só para meninos?

MOJSIE

Olha, era misto. Também era misto.

ITA

O senhor estudou até que idade?

MOJSIE

Eu estudei de idade que não tinha muito tempo. Eu estudei de idade mais ou menos até 18 anos. E eu também precisava ajudar muito em casa, como moço. Eu precisava ajudar muito. E que trabalhava, toda a família estava unida para vencer. E não demorou mais um ano, dois, que vem essa, infelizmente, essa guerra.

ITA

O senhor, na sua juventude, era membro de alguma organização?

MOJSIE

Sim, eu frequentava muito. Eu chamava Beitar, o nome do meu chefe era Jabotinsky. E eu frequentava muito. Era, como se chama, nós nos treinamos. Eu tinha muitos amigos que emigraram para Israel, a Haganah. Eu frequentava, era muito. Meu pai, minha toda a família era muito sionista nesse tempo.

ITA

Como eram as reuniões? O que vocês falavam nessas reuniões?

MOJSIE

Nós treinamos, nós muito estudamos a vida de Israel, a história de Israel. De Dr. Herzl, de todos, e de Jabotinsky, que criou nós. Nós fomos muito, assim, viajamos juntos, a gente se juntava da Polônia inteira. Assim, juntos, éramos muito religiosos nesse Beitar.

ITA

E me fala mais sobre esse... era o líder, né?

MOJSIE

Sim, era líder. Era como hoje, exemplo. Era uma pessoa mais ou menos nova, não muito de idade, era também oficial da Polônia. E ele organizava na toda Polônia. Tem muitos meus amigos que migraram para Israel de mocinhos, e eu era para ir também, mas não deu mais tempo.

ITA

O senhor sabia o que estava acontecendo na Alemanha?

MOJSIE

Eu, quando eu estava no exército, não sabia muita coisa. Mas depois, quando começamos, assim, um tempo, não sabia mesmo, de consideração mesmo, o que estava acontecendo. Que queimaram ou mataram o povo judeu, isso eu não sabia no começo. Eu sabia só que precisava lutar contra Hitler.

ITA

O senhor fazia mais o que quando era jovem, ainda sem começar a guerra, para terminar esse período da sua vida? O senhor frequentava Beitar? O senhor fazia algum esporte? Tinha algum outro interesse?

MOJSIE

Ah, sim, eu frequentava. Tinha uma organização muito boa, muito grande, chamava Maccabi. E nós sempre fizemos, de feriados, domingos. Era uma floresta, mais ou menos, uns 10 quilômetros da cidade. E sempre com... Maccabi era uma organização, a mesma, uniformada, com bandeira de Israel, com música. E nós marchamos sempre juntos lá, fazer piquenique. Era muito gostoso, uma cidade.

ITA

A comunidade judaica da sua cidade era bem unida?

MOJSIE

Era bem unida, também como aqui, em todo o mundo. Os ortodoxos estavam um pouquinho mais separados que outra parte. Mas sempre unidos. Sempre unidos. Não tinha uma diferença, mas todos eram judeus.

ITA

O senhor pode falar como era a situação econômica dos outros judeus da cidade?

MOJSIE

Conforme a família. Uma família estava bem, outra estava menos. E conforme mesmo da organização de família, serviço todo. Tinha pessoal que precisava trabalhar muito para sobreviver. E tinha uma classe mais melhor.

ITA

O senhor ouvia os seus pais falarem sobre a ascensão do nazismo? Isso daí era conversado em casa?

MOJSIE

Olha, dessa vida, antes da guerra, a gente não sabia. Já escutava que na Alemanha, [?] ela falava na rádio, a Hitler, a gente já começava um pouquinho, com muito medo. Porque tem muitos judeus que saíram da Alemanha, fugindo da Alemanha, que chegaram no Brasil também, e outros países, porque já era com muito medo.

ITA

O senhor conheceu algum refugiado? Apareceu na sua cidade refugiados da Alemanha? O senhor soube de alguém?

MOJSIE

Sim, eu tinha lá um tio, uma família. Tio, tinha uma família inteira. E eles vieram para ver, se eles fugindo da Alemanha, vindo para a Polônia. Nós, meu pai e minha mãe, nós estávamos conversando e nós falamos para ele para não ficar aqui, a gente não sabia o que ia acontecer. E como tinha antes aqui uma família no Brasil, e eles vieram para cá, para o Brasil. E graças a Deus sobreviveram, mas já há tempo que faleceram. Mas tem aqui primas, até hoje tem primas, duas primas casadas, com os netos deles. E eles se salvaram.

ITA

E a sua família nunca pensou em fugir?

MOJSIE

Ele pensou. Agora eu posso contar. Quando acabou a guerra, aconteceu que meus pais eram para também fugir, mas não dava nem tempo, porque eles estivemos felizmente bem lá. Então, nós moramos nesse prédio. No porão tinha muita coisa que podia guardar. Tudo que eles trabalharam com tantos anos, guardaram lá. Meus pais eram muito bem antes da guerra. Guardaram tudo. Mas nós tivemos, infelizmente, lá um zelador. E denunciou meu pai. Essa aqui eu soube quando eu passei minha cidade com o exército. E eu fui lá, justo perto da minha casa, e fui lá conversando com o pessoal, e encontrei uma sobrevivente da guerra lá, uma vizinha, e ela me contou tudo.

ITA

Bom, o senhor serviu o exército?

MOJSIE

Eu servia exército em 1937 até 1938, eu estava no exército normal. Quando acabei o exército, mais ou menos uns meses, aconteceu a chamada para a guerra.

ITA

Esse primeiro exército, o senhor se lembra que unidade que o senhor serviu, qual era a sua função?

MOJSIE

Sim, era um presidente democrata que estava na Inglaterra e o nome era... E nós formamos um exército, e infelizmente não demorou muito. Nós fomos primeiro logo perto da fronteira com a Alemanha e logo nós precisamos, fugindo mesmo. Fugindo muito, porque ele estava atrás da gente. Era 11 horas da madrugada, a gente deixou todo armamento pesado lá, tudo que o exército pode ter de grandeza, tudo ficou lá, para que os alemães pegaram. Porque nós fugimos, tudo de uma carabina nas costas, e fugindo. E nós chegamos na cidade e pegamos trem, e começaram a bombardear trem. Tem muita gente que pulava de trem, tem muita gente que pegava fogo do trem, que morria dentro do trem. E assim a gente chegou até Varsóvia. E até Varsóvia a gente ia mais na estrada, mais para [Łuck?]. No caminho, quando nós andávamos, a gente encontrava um shil. Todos saíram para ver nosso exército, e todos fomos lá para dar. Era justo Rosh Hashaná. Conversamos com eles, pedimos muito para eles irem junto, já, já, com a gente, fugindo, porque a Alemanha estava muito perto de nós. E de lá, quando nós andamos muito, infelizmente vem a Rússia, quando fizeram um pacto com a Alemanha, e nós caímos nas mãos da Rússia, do exército russo. Fizeram todos nosso exército, que levaram a gente para a Rússia, nas concentrações também. Mas eu, no caminho, cada duas horas, a gente descansava. E eu pensava: nem começou, já caí nas mãos, que me levaram já no exército russo, lá para a Rússia. E eu tinha um lugar muito cheio de grama, muito alto, e eu fui mais longe e eu me escondi lá. Eu também falava muito cedo, eu deixei meus pais lá, não tem o que está acontecendo com minha família, e já eu caí nas mãos do exército contrário. E eu me escondi, o exército foi embora, e eu, com o tempo, olhei, levantei a cabeça, encontrei mais pessoal, pouquinho lá, que se escondia. E tinha um judeu lá. E nós voltamos para uma cidade mais próxima lá, de volta, chamava Shedlitz [Siedlce]. E lá onde nós perguntamos onde fica o shil, porque era justo um feriado, um feriado era Sukkot. E nós fomos, nós encontramos o shil quase cheio, e eles receberam gente muito bem, e convidaram a gente para ir Yontef na Sukkot, e cada soldado foi com a família. Nós ficamos lá um tempinho, um dia, mas a gente não tinha mais pensamento do que aconteceu com a minha família lá. Eu pedi se não tem uma roupa, uma roupa para vestir em cima do uniforme. E era muito longe, muitos quilômetros, eram 400, 500 quilômetros, não sei certo quanto era. E eu comecei a andar na estrada, todo dia. Chegou de noite, eu bati na casa de poloneses, eu pedi que me deixasse para anoitecer, nem se fosse com cavalo, com vaca. E assim estava andando. De repente, eu ouvi que tem trem, que anda uns quilômetros, 50 ou mais, até 100. Eu queria aproveitar. Eu cheguei até a estação, entrei no trem. Estava trem cheio de poloneses, de refugiados. Estava lotado. Eu sentei. Sentei de lado assim, quando o trem parou numa estação, entrou, eu vi que entraram dois alemães, na procura se não tem judeus. Encontraram umas judeus, tiraram fora. Quando olhei, era já fila. Eu estava sentado de lado, ele olhou para mim, me mandou levantar, dois, e ficava perguntando se eu sou judeu. Eu esqueci que eu falo, que tem língua. Eu fiquei mudo. Assim, acho que 10, 15 minutos, estavam perto me perguntando. Então, um polonês fala que ele não entende, não é judeu. E eles me deixaram no trem, e eu fiquei no trem. Quando chegamos a uma distância, o trem parou. E eu desci do trem e comecei a andar outra vez. Andei um dia mais. Quando eu estava cansado, sempre descansava perto da estrada. Quando de longe eu vejo que vem um comboio, com uma moto na frente, no meio um carro do oficial. Um comboio, não sei de quantas pessoas. E onde eu estava sentado, eles pararam. Saiu um oficial, me perguntar, fala comigo: o que eu estou fazendo aqui? Eu atendi, que ele estava falando, mas eu não respondi. Ele me mostrou que tinha uma linha de telefone lá. E ele, tudo bravo, me pegou na cabeça, assim, não faltou, me puxou do outro lado da estrada, me jogou e foi-me embora. Essa aqui foi o segundo milagre.

ITA

Vamos parar para trocar a fita?

MOJSIE

Pois não. Muito obrigado.

FITA 2 — A volta para casa, a fuga para Białystok, a deportação[29:48] – [60:08]

ITA

O senhor estava contando que oficiais pararam onde o senhor estava. Eram oficiais o quê?

MOJSIE

Alemão. Alemães. E como eu fiquei lá, me jogou do outro lado da estrada, foram embora, eu agradeci a Deus que me salvou. Eu comecei andando, andando muito tempo. Chegou de dia, de noite, quando eu fiquei escuro eu fazia cada vez isso: pedi para não ficar na estrada, para eu poder dormir em qualquer lugar. Mas cada uma da família me recebeu, me deu. Uma vez eu dormi de um lado, do outro lado. E assim andei, acho que mais de um mês ou mais, muito mais. Eu cheguei na cidade onde estavam meus avós, 30 quilômetros da minha cidade. E eu bati numa porta, pedi se posso anoitecer, dormir lá, não, pode ser com qualquer lugar, não fazia. E eles me chamaram dentro de casa. Dentro de casa eu contei, eu vi, eu estava embaixo com uniforme polonês, estou voltando para casa. Eles me receberam muito bem, me deram janta, me fizeram na mesa para mim dormir. Mas eu pus o uniforme em cima de uma cadeira, pendurei e deitei, fiquei sossegado. Descansei. De repente, mais ou menos no meio da noite, eu ouvi abrir a porta. Quando abriram a porta, eu vi o homem, com o emblema de Hitler. Eu falei: agora cheguei até aqui, é meu final. A mulher dele contou toda a história, que eu pedi, recebeu. Ele chegou perto de mim, na mesa, e falou: "Olha, não se assusta, não tenha medo, fica dormindo até madrugada. Na madrugada eu levo você até a estrada e você vai embora." Eu falei: era o terceiro milagre. Então eu andava, tinha mais de 30 quilômetros, e graças a Deus cheguei em casa. Encontrei minha toda a família.

ITA

O senhor, por favor, isso daí era em que ano?

MOJSIE

Isso tudo aconteceu... isso que eu estou falando era tudo começo da guerra. Quando eu fui logo prisioneiro, na estrada comecei a voltar para casa. Eu queria ajudar meus pais. Isso estava tudo no começo.

ITA

O senhor estava sozinho esse tempo todo?

MOJSIE

Sozinho. Sozinho, andando.

ITA

Era a que época do ano? Era quente, frio?

MOJSIE

Nesse tempo, depois do Sukkot, era a meia estação, era, como é que chama? Não, era entre verão e entre inverno. Eu não me esqueci, não.

ITA

Aí o senhor chegou em casa e encontrou...

MOJSIE

Encontrei todo mundo, mas era muito pouca alegria. Chegaram muitos conhecidos perguntar dos filhos. E vêm também — os alemães deixavam, penduraram a cada esquina um aviso: quem voltou para casa, dessa idade, para se apresentar. Como eu tinha muito medo da minha idade, eu conversei com os meus pais, que vamos fugir tudo junto.

ITA

Quantos anos você fugiu?

MOJSIE

Eu tinha 21, 22 anos. Meus pais: "Como eu vou fazer? Vou deixar tudo isso aqui?" E ficaram mais atrás de mim. Então, o meu irmão, o meu [mais] novo, combinei com ele, que ele toma conta, para mim se salvar, senão... Eu me despedi de meus pais e fui, também já podia passar também onde estava a Rússia, onde tomava do outro lado da Polônia a Rússia. Porque metade da Polônia fizeram [pacto], era alemão, e um pedaço de cima era russo.

ITA

A sua cidade pertencia a qual?

MOJSIE

A Alemanha. E eu passei lá, e se chamava cidade Białystok.

ITA

Białystok. A sua cidade, alguma época, teve outro nome, ou sempre?

MOJSIE

Sempre a mesma cidade. Sempre a mesma cidade.

ITA

E como é que estava a situação do seu pai? Ele ainda mantinha a loja?

MOJSIE

Quando eu cheguei, ele ainda tinha loja. Sim, assim, mas depois que aconteceu, eu soube da história que aconteceu meu pai, quando eu voltei em 45 com o exército, passamos outra vez minha cidade, eu encontrei uma sobrevivente e ela me contou. Ela me contou que [ela] estava junto na concentração com meus pais. Morreram todos, morreram, na concentração morreram todos. E meu pai guardava tudo lá no porão, tinha muita coisa, joias, dinheiro, tudo que tinha da loja, as roupas. E — está errado uma coisa, está errado uma coisa, eu falei. Depois a gente chega no final da guerra, vamos, vamos, vamos indo. Eu acho que me atrapalhei um pouquinho, depois eu conto.

ITA

Bom, quando o senhor voltou, a família estava lá e ainda mantinha a loja. Aí o senhor...

MOJSIE

Isso aqui logo no começo, tinha logo, sem encontrar ninguém, quando eu fugi outra vez.

ITA

Isso, o senhor fugiu...

MOJSIE

Eu fui para Białystok.

ITA

Certo, e como é que foi lá? Como é que o senhor estava, com quem?

MOJSIE

Eu em Białystok eu estava como, assim, civil, não? Não pertencia a ninguém. Então eu procurava para sobreviver, procurava um serviço. Tinha um restaurante, eu pedi, nem se fosse para lavar louça, nem se fosse ajudando qualquer coisa, se eu fosse trabalhar. E eles me deram um emprego lá, e trabalhava um tempo. Mas não demorou muito, e andando na rua já chegaram dois, duas pessoas, dois soldados do exército russo, me pedi documento, e me levaram. Nesse tempo, me levaram para... como exército lá, prestado também para a Rússia.

ITA

O senhor falava russo?

MOJSIE

Eu, polonês e russo, a mesma coisa, [como] falo brasileiro e espanhol. Sempre a gente falava. Mas depois eu aprendi dentro da Rússia, eu aprendi bastante. Mas de lá, quanto eu falei que antes me levaram, mas eu voltei para cá, já cheguei a contar.

ITA

O senhor mostrou o documento, o senhor sempre mostrou o seu documento verdadeiro?

MOJSIE

Eu mostrei [certidão] de nascimento. Eu não tinha comigo, não segurava nunca esse [documento do] exército. Sempre [certidão] de nascimento.

ITA

O senhor alguma vez ocultou que era judeu?

MOJSIE

Sim. Eu, se eu era judeu, é sempre. Eu vou contar uma coisa. Os judeus tinham muito orgulho que eu era judeu. E como eu estava no exército, e fiz um pacto com poloneses e ingleses, e nós fomos para a Ásia, e lá nós formamos outra vez o exército.

ITA

Isso daí foi depois, né?

MOJSIE

Isso foi depois.

ITA

Então, enquanto o senhor foi levado para a Rússia, isso daí foi depois, né?

MOJSIE

Ah, sim. Quando me levaram para a Rússia...

ITA

Como foi? Como é que o senhor foi para a Rússia? Foi trem?

MOJSIE

Não, era trem. Levaram muito. Não sou eu, eu fui. Estava cheio, lotado. Era trem de transporte. Era muito feio. Era de dois lados, eram as madeiras, assim, dois andares, e só na madeira que a gente dormia. E, desculpe que eu, no meio do espaço, era nosso banheiro, fizeram um buraquinho aberto. Tinha 60 pessoas dentro desse trem, mas o trem estava lotado, e de trás, fechado. E fora do trem eram patrulhas russas, soldados russos com bagnetas, que a gente pôs assim para olhar fora, eles logo puseram essa bagneta para não olhar.

ITA

Tinha judeus e não judeus no trem?

MOJSIE

A maioria judeus, 90% eram judeus.

ITA

Tinha mulheres também?

MOJSIE

Eram mulheres, no nosso trem não, eram só homens, porque eram coisas que eram tudo junto, banheiro junto, dormitório, que nós dormíamos tudo junto. Era muito triste. Eles não deixaram água, não deram água. Quando chegamos na nossa [estação], alguém começou, umas pessoas, gritando "água, água", começou todo o trem. Acho que de... uma comprida, acho que quilômetro. E todo o trem começando a gritar "água". Não deram. Deram só para comer peixe salgado e um pedacinho de pão que estava molhado, não estava nem para comer. E muito sede e muito fome.

ITA

Quanto tempo durou a viagem?

MOJSIE

Durou acho que dois meses essa viagem. Era muito da Ásia, viu, da Rússia e da Ásia. Muito longe, porque parava muito também no meio do caminho.

ITA

Onde o senhor foi pego? Em que cidade o senhor estava?

MOJSIE

Na [Jalabat?] mesmo. Desculpe, no Białystok foi pego. Quanto eu, depois do serviço nós saímos, assim, para visitar alguém ou dar um passeio um pouquinho, andar um pouquinho, e justo caiu que eles levaram todo mundo que andava na rua, dentro de casas, levaram esses trens. Fui a toda a cidade quase, fui junto para a Rússia, que evacuaram os trens para a Rússia.

ITA

Judeus e não judeus?

MOJSIE

Muito pouco, eu encontrei que não eram judeus, muito pouquinho. Às vezes, ou engano deles, ou uma coisa diferente, mas era 99% judeus. Estava trem muito comprido, cheio de judeus. Não eram vagões, homens separados, mulheres separadas, com as crianças.

ITA

E o senhor chegou até onde?

MOJSIE

Nós chegamos na Ásia, a chamava Karaganda, a cidade onde era Karaganda. E nós lá fizemos, assim, nós chegamos logo no exército, nós ficamos como civil, compreende? Depois começaram a registrar quem chegou, não chegou.

ITA

Mas o senhor tinha sido levado como prisioneiro.

MOJSIE

Como prisioneiro.

ITA

E aí chegou em Karaganda e o senhor ficou aonde?

MOJSIE

Lá em Karaganda, no primeiro tempo, era ruim, porque nós não tínhamos nem língua, nem dinheiro, nem roupa, nem comida. Eu pedi no comércio, logo eu procurava só serviço, só trabalho, para poder sobreviver.

ITA

Então o senhor não era prisioneiro, o senhor estava lá...

MOJSIE

Um tempinho só. Depois começaram a chamar todo mundo e começaram a fazer outra vez exército, treinamento, e nós fomos outra vez para a Europa.

ITA

E na Ásia, o senhor, esse tempo todo, o senhor, como era tratado?

MOJSIE

Olha, como soldado. Eu fui tratado como soldado. Mas aconteceu uma [coisa ines]perada para mim. Era um Páscoa, um Páscoa não judeu, um Páscoa católica. E o exército chamava todos, quem estava lá na cidade — chamava Tashkent, depois chamava Tashkent — para que dava, como Páscoa, um almoço para todos os poloneses que estavam na cidade. E caiu justo eu e mais soldados para tomar conta, tudo direitinho, com o povo que estava na fila para o almoço que o exército ofereceu. De repente vem perto de mim um oficial e me falou: "Olha, nenhum judeu você pode deixar entrar aqui na fila. Se tem na fila, alguém, para retirar." Então eu falei: "Olha, eu sou soldado polonês, mas sou judeu. Eu não vou fazer isso." Então foi chamar dois soldados, me tiraram tudo que tinha munição, me levaram preso. Porque sem obediência, não obedeci.

ITA

Esse oficial era o quê?

MOJSIE

Ele era polonês. Ele era polonês. Eu fui preso e em poucos dias fizeram julgamento. No julgamento eu falei: "Olha, é igualzinho a soldado como oficial. Eu lutei igualzinho contra os alemães como oficial. Eu podia morrer igualzinho a ele." Foi julgamento, no final, oficial foi retirada dessa cidade para outro serviço do exército, e eu fui livre outra vez, fui livre, e eu ganhei a causa.

ITA

O senhor tinha advogado? Era um julgamento?

MOJSIE

Dessa vez não tinha advogado. A gente tem que se defender, porque era guerra. Não é brincadeira, uma coisa é culpada, sabe? Não tinha advogado, eu sozinho era meu advogado.

ITA

Como era o julgamento? Isso era comum acontecer, esses julgamentos?

MOJSIE

Não era comum. Era mesmo julgamento como oficiais poloneses, general, oficiais poloneses, e nós estávamos sentados como julgamento, como acontece em julgamentos iguais.

ITA

Na sua unidade tinha mais judeus?

MOJSIE

Bastante, bastante, muito. Chegou sábado uma coisa, nós rezamos às escondidas, e tudo isso aqui, tinha muito. Bastante, bastante.

ITA

O senhor ficou na Ásia quanto tempo? Que período?

MOJSIE

Tempo exato, uns meses, até treinar pessoal, até dar armamento, até tudo, demorou um tempo. E depois...

ITA

O senhor me explica uma coisa: foi criado uma unidade com as pessoas que tinham ido como prisioneiras?

MOJSIE

Não, não, o exército legal, exército como todo exército, porque a gente era do exército, mas tinha gente que não era exército. Então, foi treinamento. Um pouco tempo, treinamos tudo, mas era a vida. Quando a Inglaterra começou, começou — não vou fazer como eu, me esqueço um pouquinho, desculpe. Treinar exército era uma beleza. Nos deram uniformes, cada um soldado parecia um oficial. Deram roupa de baixo, que a gente não tinha. Roupa de baixo e de cima. A comida já era diferente. Abrimos olhos. A gente não queria saber que a gente vai para luta ou não, porque era tão... se de toda essa miséria que a gente passava, veio uma coisa boa: a gente comia, tomava banho legal, comia legal, uniforme, a roupa de baixo trocava. Foi uma coisa. E nós começamos, depois de uns meses, não me lembro direito, começamos a marchar já como soldados da guerra.

ITA

Que ano era isso?

MOJSIE

Era, mais ou menos, em 41, parece. 40, assim, nesse tempo, já. 40, 41. E depois, quando chegou já outro presidente, já era presidente comunista, já pretendemos, fora da democracia, comunismo. Assim já tinha outras leis, outras tudo. E assim marchamos junto com o exército russo. O exército russo foi na frente, na frente de nós, e nós sempre do lado deles.

ITA

Que unidade o senhor serviu, o senhor lembra?

MOJSIE

Olha, [a unidade] não me lembra mesmo, viu? Não me lembra mesmo. Porque é oficial. E oficial e soldado não tinha emblema, viu? Para não reconhecer. Reconhecer, porque aconteceu que mataram muitos oficiais poloneses, só oficiais. E então nós [não] usávamos emblema, que era oficial e que era soldado. E nós andamos até perto de, chegamos perto de Stalingrado. Lá a cidade estava — não sei se era sitiada, não? — pelos alemães. Lá a gente morria de fome. Lá a gente não achava mais nem um gato, nem um cachorro. Elas passavam, a mesma. Tem muita gente que morria só de fome lá, sitiada. E nós estivemos para trás, porque para trás também não chegava, nem para o exército podia passar de trás para a comida. E com o tempo foi muita luta, muito dura, para o exército russo junto com poloneses. Era muito difícil, era uma luta muito difícil para a liberdade. Lá foi a primeira batalha contra os alemães que eles perderam.

ITA

O senhor pode descrever como foi a batalha, o que o senhor fazia?

MOJSIE

Não. Como todos os soldados, nós entramos, ficamos nas... cavamos as... como se chama?

ITA

Trincheiras.

MOJSIE

Trincheiras. E lutamos entre vida e morte. E a primeira vez que ela começou a perder, chegou o inverno. O [inverno] da Rússia é muito rigoroso. Passa 30, 40, 50 abaixo de zero. Também a Rússia começou — a arma pesada alemã não aguentava, começa com gelo, com frio. E eles começam, esse aqui começou já perdendo, [e] o exército russo [ficou] mais [forte]. E nós chegamos perto da Polônia, já de Lublin. Quem ocupou o Lublin — era a concentração Lublin — era o primeiro russo, ocupou, porque precisava ir na frente. E nosso exército polonês entrou no Lublin. A concentração chamava Majdanek.

ITA

Isso daí já foi bem atrás.

MOJSIE

Bem atrás, bem na frente.

ITA

O senhor estava em 1941, lá na Rússia?

MOJSIE

Lá, já estava bem na frente.

ITA

Esse tempo todo, até chegar na Polônia, o senhor estava...

MOJSIE

Eu fui ferido.

ITA

Então, me conta sobre esse tempo.

MOJSIE

No tempo, eu fui ferido na mão esquerda, que eu não tenho até hoje a força. Me quebrou o pulso e toda essa parte da mão. E eu fui no hospital.

ITA

Como foi ferido?

MOJSIE

Uma coisa, um pedaço — não era de uma arma, era um pedaço de uma granada grande — que me quase tirou uma parte dessa da mão. E fui para o hospital, e eles sabem, na guerra não tem tempo: iam me tirar a mão, toda a mão, para não começar a tratar, até tudo isso aqui demorado, elas precisam deixar a cidade. E eu pedi muito, se não tinha jeito, para me deixar a mão. Para mim, isso aqui — eu fiquei um tempo inválido, sabe, um tempinho inválido.

ITA

Em que cidade foi isso?

MOJSIE

Essa aqui, essa foi da cidade, a cidade não me lembro, a cidade não me lembro. Foi uma cidade pequena, de interior. Estava a cidade e eu fiquei mais ou menos mais um mês.

ITA

Na Rússia?

MOJSIE

Não, no hospital.

ITA

Era na Rússia?

MOJSIE

Na Rússia. Depois, quando eu fiquei melhor, foi outra vez, foi outra vez. Na Rússia, assim, até nós chegamos, passamos numa cidade que se chamava Lublin. Perto de Lublin era a concentração que se chamava Majdanek. Os russos já esvaziaram todos da concentração. Parecia todo mundo — nem parecia gente, como eles andaram. Fora da concentração tinha terrenos que não tinha fim de covas de mortos. E nós ocupamos lá e dormimos nas mesmas camas onde dormiram. E meus pais, minha e toda a família morreram lá. Encontramos ainda tudo quente: ossos, montanhas de sapatos, montanhas de dentes, montanhas de cadáveres, tudo era ainda, tudo quente ainda, que nós encontramos lá. Ajudamos lá com comida, esses que encontramos. E nós ficamos um tempo lá. Era Sukkot. Esses judeus no Lublin que sobreviveram da guerra, encontramos mais ou menos umas famílias lá. E vieram lá e pediram de todos os oficiais lá, se eles podem libertar judeus para ir Yontef jantar na cidade. Nós fizemos todas essas vidas, uma fila, nós marchamos para a cidade, era mais ou menos uns quilômetros, e lá nós ficamos um tempo, e depois fomos outra vez para frente.

ITA

O senhor falou uma coisa muito importante. Quem estava em Majdanek? Quem o senhor encontrou? O senhor via algumas pessoas lá dentro?

MOJSIE

Sim, tinha algumas pessoas sobreviventes que tinham, os judeus que sobreviveram.

ITA

Qual era a aparência deles?

MOJSIE

A aparência deles era a mesma coisa que uma sombra. Se tiver lá um casal, irmão com mulher, que aconteceu, que encontrava um casal, era difícil para eles se conhecerem. E com o tempo, falando onde morava, onde todos aqui, e se juntaram com uma mulher, com um marido. Era uma história muito triste para eles.

ITA

O senhor tinha ideia que existiam campos de concentração como aquele? O senhor sabia que existia?

MOJSIE

Sim, depois a gente escutava, que contaram para a gente que tinha muito pior, que tinha outra chamada Auschwitz, tinha outros, era pior ainda. Já eles queimaram lá, antes com gás, levaram tudo junto, mulheres, homens, crianças, para tomar banho, e morreram lá com gás.

ITA

O senhor podia descrever como era o campo?

MOJSIE

O campo era... é muito triste. O campo era rodeado com soldados que estavam em cima na — nem sei em português — torres, e cheio de, assim, rodeado com arames, sabe? E andando, trabalhando, tinha muitos judeus que ajudavam até alemães. Não porque eles queriam. Foram mesmo que, às vezes, aconteceu que os pais encontraram para matar, que os filhos encontraram lá para matar os próprios pais na concentração. Tinha muitos assim.

ITA

Tinha, eram prédios? Tinha prédios?

MOJSIE

Não, prédios não. Tinha só as barracas.

ITA

Eram vários? Era grande?

MOJSIE

Muito grande, muito grande. Era muito, era bastante grande.

ITA

E o senhor entrou nessas barracas?

MOJSIE

Sim, nós entramos, porque nós ocupamos e dormimos no mesmo lugar. Com o tempo que a gente, o exército estava lá. E depois assim, a gente ajudava muito o que podia, não? Com pão, com comida e...

ITA

Vamos parar? Vamos voltar na próxima?

FITA 3 — O campo de trabalho, a Sibéria, Majdanek, a notícia sobre os pais[60:25] – [91:06]

ITA

Fita 3, entrevista com o Sr. Moisés Stobiecki. Por favor, vamos retomar na época que o senhor foi para a Rússia. O que o senhor passou enquanto esteve na Rússia?

MOJSIE

Sim, quando eu, depois da Polônia, quando eu saí, como eu falei, fui transportado, o primeiro foi Kronstadt. Kronstadt era, nós estivemos fora de cidade. Kronstadt se chamava, agora, foi fora da cidade, não estava dentro de Kronstadt. Kronstadt estava fora, a uns quilômetros. Lá tinha concentração de prisioneiros, e lá vinha companhia que alugava de serviço aos prisioneiros. E saímos trabalhar, voltamos. Mas sabe como era, eles não estavam acostumados a esse serviço, trabalhar na terra, trabalhar outras coisas. Que vem uma comissão de Leningrado e começaram a gente levar como profissões. Chegou de noite, foi a... começou também entrevistas com o [?], como especial, o que ele sabe fazer, não? E justo chegou na minha mesa, quando eu fui chamado. Era um oficial, ele me falou em hebraico, eu falei: "Moshe, seus pais, o que eram?" Não podia lá falar que meus pais tinham comércio, uma coisa; tem que ser, trabalhavam na fábrica. E eu falei: meu pai era alfaiate e trabalhava lá. E o que eu fazia? Eu ajudava, trabalhava também. "Tá bom, o que se sabe fazer?" Eu sei costurar. "Tá bom, olha, Moishe, pode ficar de lado." Fui depois, um dia, chegou de manhã, antes de ir no serviço, era um frio, acho que tinha 30, mais de 30 embaixo de zero. Vieram com uma lista. Maioria, 99%, tudo ficou para ficar em casa. Uma era alfaiate, outra era sapateiros, era também outras, todas profissões. Mas infelizmente muito pouco que sabia trabalhar. Quando começaram a fazer oficinas, tudo prepararam, e agora? E entre nós tinha um homem que era da cidade de Lodz, já um pouquinho mais de idade que nós. Era um alfaiate mesmo. Quando chegaram as máquinas, levaram um grupinho, uns dias, e ele costurava, mostrava, até a gente aprendia. Começamos a trabalhar. Um fazia — porque não, cada um fazia uma peça — um fazia bolso, aprendemos depressa, um fazia bolso, outro fazia outra parte, toda a parte, e começamos a trabalhar, fomos muito bem. E no final nós ganhamos uma, assim, sobrenomes, quem trabalhava bem: era [do] russo Stakhanov. Ele chamava que a gente merecia melhor comida, merecia melhor cama. Já melhorou bastante. Lá melhorou bastante. Lá tinha muita gente que não conseguiu. Então nós ajudamos, porque a gente comia melhor. Eu encontrei o amigo do meu irmão, que estava lá, e eu sempre ajudava com um pedaço de pão. Sempre ajudava, mas não me lembro mais o nome, porque era amigo do meu irmão.

ITA

O senhor lembra de algum nome dessa época? De alguém que trabalhou lá com o senhor?

MOJSIE

Olha, tinha tanta gente que não... Eu sabia o nome desse homem, mas não me lembro agora.

ITA

Como era a vida lá?

MOJSIE

A vida era assim. Começamos a trabalhar com o tempo. Com muito tempo a gente trabalhava fora, não aguentava, porque não fazia nem ficar parado um segundo. Então eles fizeram — que não pode fazer nada — fizeram essas funções para cada um, e isso foi bem.

ITA

Tinha mulheres também?

MOJSIE

Não, era só homens. Tinha mulheres, mas outra concentração separada, que também alugaram para trabalhar, mas eram todos separados. Eram russos, eram judeus, eram de todas as nações. E que levaram, nós não tínhamos contato, porque era tudo... Enquanto a gente foi trabalhar, foi trabalhar com soldados, assim, com bagnetas, para trabalhar. Enquanto a gente ficava no serviço, olharam a gente todo dia.

ITA

Que roupa o senhor usava?

MOJSIE

Ah, eu usava uma roupa muito... tinha só uma camisa, e quando nós fomos tomar banho, eu dei uma lavada, e tinha lá um fogão, sei lá como chamava, secava, meio molhado, depois de outra vez. Estava muito, estava muito triste. Mas nós melhoramos com essa aqui, que nós começamos a fazer esses serviços: o uniforme para enfermeiras, uniforme para médicos, uniforme para hospitais, para gente de prisão. A gente aprendia, porque cada um aprendeu uma coisinha pequena, compreende? Tinha muita coisa. Um fazia isso, um fazia isso, e no fim saía uma peça, sabe?

ITA

A roupa que o senhor usava não era roupa de prisioneiro?

MOJSIE

Não era bem de prisioneiros, mas eles deram, porque não tinha mais, porque acabou a nossa roupa. Acabou. Cada um que tinha uma camisa, acabou a nossa roupa.

ITA

Como eram? Eram só judeus? Quem estava nesse...?

MOJSIE

Não, não, não. Era a maioria judeus, mas não era só judeus.

ITA

E tinha alguém mais religioso entre vocês?

MOJSIE

Tinha, tinha muito. Escondido. Rezavam todo dia. Não podia, viu? Não deixavam. E essas pessoas que não podiam sair trabalhar, eles jogaram, pegaram lá, jogaram fora, por força. Para sair de lá, eles já — já tinha pessoas que ganhavam, sabe, eles, a concentração ganhava por nós, por pessoas. E eles, religiosos, rezaram escondidos, foram num lugarzinho escondido e rezaram, mas foi muito proibido.

ITA

O que acontecia?

MOJSIE

Acontecia que ele ficou um dia [a pão e?] água, compreende? Foi preso. Não podia rezar.

ITA

E como eles sabiam que era alguma data especial, esses religiosos?

MOJSIE

Não, eles viram falta, não. Eles abriram as portas, havia escondido, um foi embaixo da escada, o outro foi assim, tudo escondido. Se eles pegaram, foi, às vezes, uma pessoa que compreendia que não, mas a maioria, eles jogaram mesmo, não deixaram.

ITA

E o senhor ficou...

MOJSIE

Tem muita gente aqui que não comia, que era kosher, não comia, mas não adiantava. Hoje tinha até rabinos lá, filhos de rabinos. Eles sofreram mais que a gente.

ITA

O senhor se lembra de algum nome desses?

MOJSIE

Não, não, não. Olha, tinha tanta gente, viu? Faz 50 anos agora. Olha, às vezes, já não foge minha...

ITA

O senhor, enquanto estava lá, tinha notícias da Europa?

MOJSIE

Não. Nenhuma. A gente não sabia de nada. Só quando chegava com os [aliados?] mais perto.

ITA

E daí, o senhor ficou quanto tempo nesse lugar? Qual é o nome mesmo da cidade?

MOJSIE

Kronstadt.

ITA

Isso. O senhor ficou quanto tempo lá?

MOJSIE

Nós ficamos lá mais ou menos uns bons meses. Mas certo ou certo eu não me lembro, mas ficamos um tempo mais ou menos, acho que até um ano. Mas não me lembro direito, se um mês ou um ano, mas não me lembro.

ITA

E de lá o senhor foi para outro lugar?

MOJSIE

De lá aconteceu que os alemães com a Rússia começaram a se desentender, então os alemães começaram a ir à guerra contra a Rússia. Quando começou, eles evacuaram gente, levaram gente para a Sibéria. Era uma viagem muito longa, uma viagem muito fria, que eu falava, com esses trens, esses trens tudo fechados, não podia nem pôr os olhos para fora. Deram muito peixinho salgado, sem água. Quando chegou numa estação, a gente, em trem, [gritava]. Vieram os russos de perto, que escutaram, vieram com pão, com água, para dar para a gente, e eles não deixaram.

ITA

Aí o senhor ficou na Sibéria.

MOJSIE

Eu fiquei na Sibéria também um tempo. Muito frio, gelado, muito, muito frio, muito gelado. Lá chegou até quarenta abaixo de zero, óbvio. E nós ficamos lá.

ITA

O que que o senhor fazia enquanto estava lá?

MOJSIE

Também, mas não era trabalhar. Trabalho, só trabalho.

ITA

Também de costura?

MOJSIE

Lá não, lá já fazia qualquer serviço.

ITA

O quê?

MOJSIE

Qualquer serviço lá fora precisava, porque era muita coisa: de fazer a terra, trabalhar a terra, para ter comida, para chegar, porque não chegava comida. E lá estava muito ruim, viu? Muito ruim. Lá tinha um barracão muito grande, muitos soldados, sem banheiro também. Com 40 abaixo de zero precisam ir fora. Era muito... Eu não sei, eu me pergunto sozinho: que jeito eu sobrevivi, que jeito eu estou aqui. Eu mesmo não. Eu acho que eu sobrevivi só para contar a história, viu? Mas a história dos meus pais ainda pouquinho que eu vou contar.

ITA

E da Sibéria, o senhor tem alguma coisa mais para contar?

MOJSIE

[?] Sim, na Sibéria, eu numa cidade chamava, uma cidade grande, chamava — não me lembro — cidade muito perto, também perto de Sibéria. E lá encontrei um amigo até, um conhecido, lá na cidade. Foi um milagre também. A gente se encontrava lá, e era um filho de muito religioso lá. E ele estava escondido lá. E a gente se encontrava lá, conversávamos, mas infelizmente não sei mais o que aconteceu.

ITA

Os religiosos mantinham a aparência, as barbas?

MOJSIE

Eu usava a chapeuzinha pequena e eu conhecia ele como... porque eu usava esse uniforme de religiosos, não? Esse kapote muito comprido, e essa chapeuzinha redonda, pequenininha. Eu reconhecia ele.

ITA

E eles usavam isso apesar de serem mais perseguidos?

MOJSIE

Eu não. Lá já estava um pouquinho diferente. Mas eu reconhecia ele. Muito difícil conhecia ele. E depois que conheci, não sei. Estão espalhados, povo judeu, todo lugar, muito espalhado.

ITA

Bom, e daí o senhor ficou, então, na Sibéria, e de lá foi para onde?

MOJSIE

Então, de lá nos transportaram, [porque] bombardearam tudo lá. Então tiraram gente depressa também, nos trens, e fomos ir para a Sibéria, levar para a Sibéria. Também demorou muito tempo, muito tempo. Ainda me lembro, nós passamos assim uma cidade, um viaduto comprido, que eu vi — era um dia bonito — e eu vi criança, estava na rua cantando, anda passando, gente andando. E gente parecia... nem gente, viu?

ITA

Como estava a sua saúde?

MOJSIE

Olha, eu não sei falar. Só tinha fome. Eu não sei que jeito. Tem gente que perdia muito frio, os pés ficaram gelados, as mãos às vezes ficaram geladas. Eu não posso nem acreditar como eu sobrevivi. Eu não posso nem contar, nem sei.

ITA

O senhor rezava?

MOJSIE

Eu não rezava, porque para se salvar, viu, já estava tão ruim. E também minha família não era ortodoxa, sabe, minha família era... Só o meu pai me deu — e como eu contei — [tefilín?] para mim, eu estava com medo.

ITA

O senhor manteve esse [tefilín?]

MOJSIE

Manteve muito tempo, mas, sabe, a gente trocava, e me desapareceram, não sei de que jeito.

ITA

Bom, o senhor ficou na Sibéria e depois foi para onde?

MOJSIE

Depois da Sibéria, nós fomos para a Ásia, como eu já contei, que a Inglaterra fez um pacto com a Rússia, para nos retirar de lá e ir para, como se chama, para a Ásia. Mas lá também tinha muita gente que não eram soldados. Eram mais de idade, eram um pouquinho doentes, e eles mandaram para a Inglaterra, mandaram para a Inglaterra, para Israel. Então, todos os judeus, a maioria dos judeus em Israel ficaram lá. Ficaram em Israel. Muito que eu encontrei nessa história também em Israel, que eu encontrei que eram também na Sibéria. Encontrei muitos judeus de idade lá em Israel, que se encontramos, contar histórias que não se encontram. "Eu também estive lá, eu também estive lá."

ITA

O senhor encontrou há pouco tempo?

MOJSIE

Não, porque eu estava na [Ashkelon?], na Israel.

ITA

Isso quando?

MOJSIE

Isso já muito depois da guerra.

ITA

Ah, tá certo. Vamos voltar aonde o senhor estava. Foi então que o senhor disse que ganhou a roupa bonita do...

MOJSIE

Sim, mas cada um parecia um... a gente, nem soldado, todo mundo era igual, o oficial. A Inglaterra nos deu uniformes, com tudo. Nem parecia exército particular. Fora esse aqui, de baixo, essa roupa de baixo quente, de lá, outros, para trocar, cada um tinha umas camisas, umas roupas para trocar. Nós era outra coisa.

ITA

Então, o senhor teve experiência com oficiais poloneses, russos e ingleses?

MOJSIE

Não, não ingleses. Só a única coisa que tinha na Inglaterra: tinha como presidente e tinha lá mais poloneses de governo, não que fizeram governo comunista. Essa aqui. E eu vi que tinha muitos oficiais que já falaram polonês, muito, muito, não sei quantos que... Não podia falar como oficial, porque mataram as russas mesmo.

ITA

Bom, aí foi como o senhor contou, que estava no exército e atravessou novamente da Rússia para voltar, foi voltando para a Polônia.

MOJSIE

Sim, nós entramos para a Polônia. Os russos eram na frente, libertaram Lublin, cidade bem grande, e concentração Majdanek.

ITA

Agora, por favor, me conta um detalhe sobre Majdanek.

MOJSIE

Majdanek, nós encontramos muito triste. Nós encontramos ainda — é um lugar muito grande — nós encontramos, como se chama, essa aqui, que queimaram gente com, como se fala, com formatórios, como se fala?

ITA

Fornos.

MOJSIE

Formatórios. Crematórios. Desculpe. Crematórios. Que [encon]tramos ainda ossos. Como eram esses? Era assim como se levava, assim, fornos que você assa, ou assa uma galinha. Se você assa um ganso, uma coisa grande, assim. Dentro estava cheio de ossos. Eram assim bastantes lugares, sabe, eram esses crematórios. E tinha crematórios grande também, mas essa aqui de dependência. Estava triste. Nós encontramos essas montanhas depois: de sapatos, de criança, de recém-nascida, até maior número, era, roupas. Era muito triste lá, era muito triste. Nós dormimos nas mesmas camas. Esses sobreviventes que sobreviveram eram sombras, e nos ajudavam muito com pão, comida, cada um que encontrava, sabe? Era muito triste.

ITA

Tinham muitas pessoas ainda lá?

MOJSIE

Tinha, tinha bastante ainda pessoas que sobreviveram lá, que trabalharam, sobreviveram lá, porque não tinha tempo para matar todo mundo. Tinha muita, muita, muita gente ainda. E depois de mais de um ano fizeram uma sociedade, e começou a vir a ajuda, não? Ajuda tudo. E vem muita ajuda de outros países, e vem Joint e tudo, começou a fazer. Cada cidade tinha uma sociedade, e ele, sabe, começou encontrando famílias, e nós levamos muita comida para lá.

ITA

O senhor presenciou alguma cena, assim, como as pessoas, os prisioneiros recebiam a comida? Como era isso? O senhor, quando entregavam comida para os prisioneiros, como eles recebiam essa comida?

MOJSIE

Olha, a nossa comida: 300 gramas de pão.

ITA

A comida que vocês davam para os prisioneiros?

MOJSIE

Para a prisão, para a prisão, em Majdanek: pão, sopa, coisas mais que eles cozinharam, batata. Qualquer cidade começou a fazer essas, ajudar para sobreviventes.

ITA

Quando chegaram os primeiros socorros, o que foram as primeiras coisas?

MOJSIE

O que a gente tinha na mão, a gente ajudava. Pedaço de pão, pouquinho açúcar, pouquinho comida. O que podia na mão, essa crise.

ITA

Tinha médicos na sua unidade, juntos?

MOJSIE

Esse exército, o exército tinha médicos.

ITA

E as pessoas, os civis que moravam perto de Majdanek, sabiam o que estava acontecendo no campo?

MOJSIE

Sim, eram muitos sobreviventes que moraram lá, eram de outras concentrações. Na cidade de Lublin, que era perto, eram umas sobreviventes, uma sociedade, fizeram de sobreviventes, e até convidaram o exército para o feriado, para fazer uma janta. Logo, o povo judeu, em qualquer cidade, se juntaram e se encontraram.

ITA

E o senhor, nessa época, sabia sobre seus pais?

MOJSIE

Eu não sabia. Eu não sabia o que aconteceu. Desde o tempo em que eu fugi da minha cidade e saí, esforçado da minha cidade, de medo, para um mundo, para outro, para ver a história de lá. Então depois eu não sabia. Eu soube da minha família quando eu voltei com o exército. Eu tive essa sorte, que o exército passou pela minha cidade, e encontrei uma sobrevivente, e ela me contou toda a história.

ITA

Conta, por favor.

MOJSIE

Minha história eu vou contar mais já quando eu fui libertado, porque essa sobrevivente já encontrei — olha, fala a verdade, viu, que me atrapalha um pouquinho, não sei se foi depois ou um pouquinho antes — mas eu vou contar que eu encontrei minha sobrevivente. Ainda parece que eu me lembro, não me lembro, que era ainda como soldado. Eu encontrei essa sobrevivente e eu perguntei onde ele estava. Ela falou que ela estava morrendo com seus pais e irmãos. Todo mundo morreu, ela falou. Só a única coisa que ela não tem certeza de uma irmã minha, que ela estava fora de concentração. Mas ela não sabe se ela morreu ou sobreviveu, ela foi para a [?]. E, como meus pais contaram a ela, e eles conheciam a gente, que ele contou que vem um, como chama, de prédio, alguém que cuida do prédio, um zelador. E ele foi denunciar os alemães, que gente tinha escondido lá muita coisa no porão. Então vieram os alemães com uma carroça — não, eles vieram com carroça, com cavalo. E levaram meu pai como carregador. Precisa tirar tudo que tinha lá, nas costas, põe na carroça. Tiraram os cavalos de carroça. Meu pai foi cavalo, precisa puxar carroça com tudo isso aqui. Era muito triste isso aqui, porque levaram tudo. Como eu falei, contei antes, que eu encontrei um oficial russo, que eu fui para a Europa, e que eu escrevi umas palavras para o meu pai. E chegou essa carta, e meu pai pediu ajuda, e ela estava fechada. Eu mesmo precisava de ajuda. Que era de tudo o que tinha, que tudo o que tinha só sobrou um travesseiro — porque na Europa tinha travesseiro de penas grandes — e uma coberta só, para me ajudar. Que jeito eu podia ajudar? Mas não encontrei mais nunca ninguém. Todos morreram no [Majdanek?]. Era uma coisa muito triste. Depois eu fui ver minha casa. Eu entrei... primeiro eu fui na loja, porque era na rua. Já tinha uma loja de ferro. O homem me recebeu muito bem, ele falou: "Eu não tenho culpa. Estava vazia, não tem culpa, eu pus, eu sou de [ramo] de ferro, pus ferro, mas eu não tenho culpa de nada." E depois eu fui onde eu morava, bati na porta, abri: uma senhora. Quando ela me viu, ela assustou, muito susto. Eu falei: "Eu não morava aqui? Essa casa que era [minha]..." Aí começou a chorar: "Eu não tinha culpa. Antes de eu vir aqui, moravam os alemães. Como começou o alemão a perder a guerra, eles tiraram tudo o que tinha, levaram junto e fugiram. Como estava vazia, eu não sabia se alguém vive ou não vive. Eu vim aqui e eu mudei o nome, mas eu não tinha culpa nenhuma." Começou a chorar, e toda a família. Eu vi que ele não tinha a mesma culpa, e ele me contou também desse zelador. Esse zelador, eu procurava ele, eu queria vingança, mas não encontrei. E ele me convidou para almoço. E eu não quis mais voltar para casa, não queria nem ver a casa, não queria ver a loja. E assim aconteceu, e era o final, era triste. Eu já vou, depois eu já, quando chegou a hora da libertação do exército, eu ganhei do meu serviço como soldado a medalha, que sobrou só papel. Da minha família, que só sobrou também só papel.

ITA

O senhor falou que foi condecorado? Por quê?

MOJSIE

Eu fui exército, eu fui de primeira hora, que [entrei] para a guerra, eu fui prisioneiro, eu sempre fui do lado do exército, compreende? Não só eu, tinha muitos que mereciam, que foram decorados com essa medalha.

ITA

Vamos parar um pouquinho, por favor?

MOJSIE

Sim, sim, agora...

FITA 4 — A fronteira, Paris, o Brasil, a família refeita[91:21] – [121:39]

ITA

Entrevista com o senhor Moisés Stobiecki. Por favor, o senhor estava me contando que foi condecorado pelo exército polonês. E depois, o que aconteceu?

MOJSIE

Era na cidade de Lodz. Foi libertado, liberado, não é? Mas...

ITA

Como foi a liberação?

MOJSIE

A liberação foi que eu recebi medalha, que eu recebi saída do exército, como se fala. É, esse documento. E num dia, mais ou menos uma semana, que eu tinha direito de levar coisas para comer. [?] era um polonês. E quando eu fiquei liberado, eu fiquei na meia da rua: onde eu vou? Não tinha onde ir, nem dormir, eu não tinha onde comer. Mas deram uma liberação, todos esses aqui que estão na minha situação, que não encontraram mais família, podiam voltar para o exército sem um compromisso, até resolver o futuro. Eu voltei. Voltei para o exército, fiquei lá pouco tempo, encontrei mais soldados como [eu que] não tinha mais família. Então nós resolvemos abandonar e ir para o mundo, ver o que está acontecendo no mundo. Então, nós passamos na fronteira com a Rússia, porque era para a Rússia, para poder passar para a Rússia, porque era alemão, era dividido, metade russo, metade alemão. Não era muro de Berlim, era dividido. E eu pensei, é verdade, o que eu fiz? Essa aqui não sei. Vou contar essa coisa que eles fizeram, por favor, porque eu levei um pacotinho de cigarro de 100, um litro de vodka, porque temos mais que eu, nós temos um grupinho, e nós fomos amigos, e deixaram passar.

ITA

Me conta melhor esse episódio.

MOJSIE

Melhor assim: chegamos na fronteira.

ITA

O senhor estava com mais gente?

MOJSIE

Sim, com mais como eu, com mais pessoas como eu, que nós organizamos para ir, não? E contamos, falamos, tinha essa coisa, medalha, documento, muita coisa que levaram da gente, não? E demos essa vodka e cigarros. Eles falaram para mim: "Olha, nós vamos deixar passar. Mais adiante, o que pode acontecer, a gente não será [responsável]." Porque era na nossa frente, mais ou menos um quilômetro, tinha floresta. Até lá era muito neve, muito inverno, muito neve, que a gente podia ver uma pessoa de não sei de quanto, de quilômetros. Mas graças a Deus chegamos até floresta. Nós fomos lá e nós chegamos numa cidade que se chamava Frankfurt [an der] Oder. E de lá nós ficamos na Alemanha um tempo. E de lá, um tempo na Alemanha, e de lá nós fomos para outra vez, compramos, pedimos a alguém comprar para nós passagem para Paris. E essa pessoa comprou passagem, nós sentamos no trem, vim controlar as bilhetes, estava tudo certo, comprei para a viagem, tudo. E no fim nós chegamos madrugada em Paris — como minha filha estava lá agora, antes de nascer. E nós chegamos em Paris, chegou madrugada, e procuramos um hotel de décima categoria, porque não tinha dinheiro, para poder dormir. Nem dormimos uma noite: chegou no meio da noite, botando a porta, polícia. Porque o hotel precisa dar quem está lá, eles estão registrando, levam todos para a explicação: quem nós somos e [como] chegamos. Como eu tinha documento da guerra, era soldado, eu fui liberado logo. Deram tempo, uns meses. E depois foi legalizado. Por quê? Porque eu era soldado e eu lutei, não pelo nós, pelo mundo, vamos falar. E esses que tiveram concentrações, eles foram mandados todos de volta, porque "vocês não lutaram, ficaram lá, mas não lutaram". Foram todos voltados de lá.

ITA

Foram para onde?

MOJSIE

Foram para a Polônia outra vez. E eu fiquei lá, como já contei, precisa sobreviver, precisa futuro no país. Como já estava uma vez, só precisa me apresentar no comércio cada mês, me apresentei. Depois me legalizei, já podia trabalhar, tinha direito de trabalhar. E o que fazer? Como eu já trabalhava lá na costura, na máquina e tudo, eu conheci uma pessoa que fazia calça. Eu falei: "Se o senhor me quer aceitar, eu preciso sobreviver. Três meses eu vou trabalhar de graça, não quero nada, nem um centavo. Só eu quero aprender a fazer a calça." Foi assim. Me ajudou, me convidou para almoço, almocei, jantei, e trabalhei três meses. Depois de três meses, o que eu vou fazer? Fui procurar alguém que me dê serviço. Foi numa firma grande, que exportava as calças para a Inglaterra. Eu fui lá, ele me deu uma calça, amostra, sabe, amostra. E eu pedi, onde eu aprendi, para eu poder fazer essa calça lá na casa deles. Eu fiz essa calça, caprichei, fiz a calça, e passei, aceitaram. E agora, a máquina? Também tinha judeus que eu ajudava lá, sabe, lá. Olha como se juntam todos os judeus, uma [gemeinde?], sei lá como é que se fala.

ITA

Uma sociedade, uma organização.

MOJSIE

E encontrei um que tinha máquina, e a prestação, comprei a prestação, a máquina. Eu voltei lá para o homem e eu falei: "Você pode me dar mais? Me dá um serviço para fazer para uma semana. Já arrumei alguém que me ajuda, porque sozinho precisa custar a mão, precisa isso." Olha, depois não tinha lugar, mais tanto serviço que eu tinha, já precisa comprar mais uma máquina. Já comecei a procurar uma pessoa que passa, uma que faz a mão, outra a mão. Assim já comecei a ter uma pequena, uma pequena, como é que se fala, [oficina] que trabalha, uma pequena... Olha, tinha tanto serviço, até de manhã às sete horas até meia-noite, tanto serviço que tinha. E eu lá, eu já, tanto serviço, já tinha, já pude ir para dar aluguel, já pessoal, já aprendi umas palavras francês, precisa de táxi para levar, para trazer. E lá fiquei dois anos. Adorei muito.

ITA

Por que o senhor foi para Paris? Por que escolheu Paris?

MOJSIE

Porque eu ouvi que em Paris, às vezes, numa cidade grande, a gente pode arrumar serviço e encontrar parentes. Encontrei um casal de primos lá, que eram também para Paris, eram partizanos. E lá encontrei — não soube, encontrei em Paris — e já tinha mais alguém em Paris, só. Mas eu trabalhei, fiquei dois anos.

ITA

O senhor sabe, o senhor lembra o nome desses primos?

MOJSIE

Eu lembrava, viu? Olha, esses dias eu estava pensando, pensando, marcando, e não me lembrei.

ITA

Eles chegaram a comentar alguma coisa com o senhor? O que eles faziam?

MOJSIE

O que eles faziam? Eram partizanos. E foram de lá a mesma coisa, foram até Paris como todo mundo, ilegal. Então, como eram partizanos, também ficaram lá. E fiquei lá dois anos.

ITA

Antes de o senhor sair de Paris, eu queria voltar um pouquinho e saber o que aconteceu com os outros judeus da sua cidade.

MOJSIE

Outros judeus da cidade?

ITA

O senhor tinha mais família lá, não tinha?

MOJSIE

Mas cada um, a maioria ser humano, aqui ficaram mais. Outros foram trabalhar para outro que tinha firmas, nas lojas, que tinha já uma fabriquinha. No começo, eles não tinham mais escolha, qualquer serviço servia, isso servia. E cada um — o Joint ajudava muito também, e o Joint ajudava.

ITA

Como que ele ajudava?

MOJSIE

Ele ajudava: eu precisava de máquina, não? O Joint, eu fui e eles me deram, assinaram pelo crédito, eu que pagava. Se precisava de comida, alguma coisa, assim, eles ajudaram muito.

ITA

O senhor soube dos seus amigos de juventude do grupo Beitar, onde...

MOJSIE

Sim. Quanta oportunidade, quando foi a primeira vez para Israel, porque muitos foram para Israel para entrar na Haganah. Muitos amigos. Eu procurava, mas era difícil para achar. Era difícil. A cidade onde eu morava era pequena. E só encontrei lá um conhecido, era amigo do meu irmão, um conhecido. E também a gente lembrava da minha cidade e tudo. Me convidava lá para jantar de sábado. Estava com a minha senhora lá.

ITA

Isso quando o senhor foi para...

MOJSIE

Isso foi quando eu já estava casado, já estava longe.

ITA

E o senhor, quando era jovem, tinha sonhos de...

MOJSIE

[Pretendia] muito.

ITA

E o que houve? Por que não foi?

MOJSIE

Não, eu não fui porque não dava já esse tempo, compreende? Eu preciso também ajudar meus pais, trabalhar meus pais. E não tinha esse tempo, e logo vem a guerra. Eu não tinha esse tempo. E todas essas aqui que foram para [Israel] — eu estava procurando, duas vezes que eu estava nisso, e eu estava procurando e eu não achava ninguém. Pode ser em outras cidades que eu visitava, mas não dava, num dia, achar, não? Que a gente pôde visitar uma cidade num dia para achar uns amigos.

ITA

Antes da gente seguir...

MOJSIE

Eu até me lembro de um amigo meu bom, que se chamava Goldstein, que foi para Haganah. Conheci um amigo que trabalhava no Joint em Paris, que um amigo que estava em Israel. E eu, quando estava em Paris, por intermédio do Joint, ele descobriu meu endereço, e ele pediu na conversa como eu estou, como está ele. Ele casou também de uma mocinha que estava do lado do nosso grupo da Polônia. Eles casaram, ficam em Israel. E ele me inscreveu também. E não encontrava, não sabia onde é. Também morava na Alemanha, depois eles vieram para a Polônia. Eles eram [judeus] alemães.

ITA

O senhor lembra o nome?

MOJSIE

Lembro, só preciso dar uma pensadinha.

ITA

E onde estão agora?

MOJSIE

Temos dois irmãos. Um morreu logo no começo da guerra e o outro está casado, está em Israel. Mas onde, o que aconteceu, não sei.

ITA

Sr. Moisés, voltando um pouquinho, o senhor tem mais alguma coisa para contar da época que o senhor estava na Polônia? O senhor passou alguma vez por algum gueto?

MOJSIE

Na Polônia, quando eu fui liberado do exército, eu soube que tinha gueto no Lodz. Eu me informei endereço e fui até lá. Encontrei tudo vazio. Só se pisava nas fotos que tinha no chão. Mas estava tudo vazio, tudo vazio. Não encontrei ninguém, porque era tudo no começo, não encontrei ninguém. Estava tudo a mesma coisa como a concentração, viu? Estava tudo abandonado, tudo vazio, tudo triste.

ITA

Já era no final, depois que o senhor foi liberado, né?

MOJSIE

Já foi no final. Aproveitei enquanto eu estava na [Polônia].

ITA

E o senhor passou por mais alguma cidade da Polônia? Como é que estavam as ruas, as cidades, as sinagogas?

MOJSIE

Olha, na minha cidade tinha uma sinagoga de cinco mil cadeiras. Enquanto eu voltei, só vi chão. Era aí do lado de yeshivá, e essa aqui foi toda destruída. Mas essa da minha cidade está mais bonita do que era. Eu passei pela Varsóvia. Quando encontrei Varsóvia, bombardeada. Tão bombardeada que nós passamos por uma rua, às vezes precisa pôr uma coisa na cabeça para não [machucar] a cabeça. Enquanto eu voltei, também já estava melhor, mas a Polônia foi muito castigada. E minha cidade ficou, nem um tiro, está vendo? Nem um tiro.

ITA

Enquanto o senhor foi liberado, o senhor encontrou alguma pessoa que foi muito presente no Holocausto? O senhor soube de alguma pessoa famosa? O que aconteceu com os oficiais alemães?

MOJSIE

Eu sei que aconteceu, porque quando eu estava depois, já libertado, eu, assim, para... Então, eu visitei na saída, como eu já contei, todos esses oficiais alemães.

ITA

Aonde?

MOJSIE

Nuremberg. Eu assisti umas vezes, entrada e saída deles.

ITA

Como era o clima na cidade, nas ruas?

MOJSIE

Ah, a gente só pedia a pena de morte, não, para eles.

ITA

Quem o senhor viu?

MOJSIE

Ah, o Goebbels, Göring, umas muito importantes de governo do exército.

ITA

E o senhor teve acesso, o senhor viu, ou só...

MOJSIE

Não, só no portão, entrando. Só, o portão estava aberto, eles vêm de ônibus, muito especial, e só a gente via metade, as cabeças, assim, a gente via perfeito eles. Só a gente só pedia a pena de morte para eles.

ITA

E isso demorou quanto tempo?

MOJSIE

O que eu vi? Eu vi mais ou menos pouco tempo. Demorou, depois eles foram condenados, já depois eu estava fora.

ITA

Bom, aí já era, foi então que o senhor foi para a França, não é?

MOJSIE

Sim, depois já fui para a França.

ITA

Aí o senhor me falou que...

MOJSIE

É, depois já fui para a França.

ITA

A França ficou até quando?

MOJSIE

Dois anos. Mas eu sabia que tinha parentes, mas onde, eu não sabia. Não sabia. E justo foi um amigo meu, foi para Estados Unidos, mas ele falou para mim: antes ele passa pelo Brasil, ele também tem parentes aqui, e de lá ele vai para Estados Unidos. Eu falei: "Olha, leva meu nome. Leva meu nome, e lá você encontra o jornal, uma coisa. Você vai poder encontrar." Era bom, quem sabe? E foi assim. Ele foi, nem demorou uns dois meses, já veio a resposta. Encontrou uma pessoa, um primo do meu primo, em Rio de Janeiro. A resta de família morava todo em Porto Alegre. E logo, logo, eu tinha resposta. Como eu tinha resposta, eu já vinha. Então, eles queriam, com todo custo, para mim ir para o Brasil. Mas eu venho aqui já como turista, vem três meses. Eu venho três meses, passei aqui e ia voltar, ia voltar. Me pediram: "Olha aqui, vai ter outra guerra, aqui tem família, fica aqui." Prolonguei mais três meses. E nesses três meses eu, de Porto Alegre, eu passei para São Paulo. Para São Paulo, eu tinha aqui uns vizinhos que eram do mesmo ramo do meu pai, da mesma rua. Eles chamavam [?]. As filhas hoje me conhecem ainda. E tinha uma pessoa que chamava Goldman, que também trabalhava para a gente. E lá era no Bom Retiro. E eu sempre fui visitar no Bom Retiro lá. Eles sempre convidaram sábado, domingo, sempre, para sábado, para janta. Me dava muito bem, eram bons conhecidos da Europa. E lá felizmente, com gosto, me conheci.

ITA

O senhor conheceu quando a Dona Clara?

MOJSIE

Eu conheci a Dona Clara já era depois que eu resolvi não voltar mais para Paris. Eu fiquei aqui, e aqui. Enquanto eu conhecia a Dona Clara, não sabia falar. Só... porque encostado morava a irmã dela. Em São Paulo. Era bonito, era Macabi, e de Macabi a gente se juntava lá na porta deles. E lá eu vi na rua, olha como eu mostrei. E eu me casei.

ITA

Quando o senhor se casou?

MOJSIE

Eu me casei mais ou menos faz 50 anos, em maio. Não, não tem mais, parece que há 50 anos, não? É maio? 3 de junho.

ITA

3 de junho de que ano?

MOJSIE

50.

ITA

E o senhor aí se estabeleceu em São Paulo.

MOJSIE

Eu me estabeleci em São Paulo. Sabe, por cada homem que vem, cada homem imigrante que vem para São Paulo, o primeiro começo, o que que era? Era clientela. Assim, outro jeito. E assim, a gente foi para frente. Graças a Deus, agora, neste ano que vem, em junho, faz 48 anos. Graças a Deus, estamos com saúde. Eu tenho aqui perto o meu genro, o meu filho.

ITA

O senhor fala dos seus filhos. Quantos filhos o senhor tem?

MOJSIE

Eu tenho três filhos, um homem e duas moças.

ITA

Qual o nome deles?

MOJSIE

Uma Raquel, que logo vem, e uma Paulete, que está em Israel, com dois netos e marido.

ITA

E o filho, qual o nome?

MOJSIE

Tem meu filho Henrique, e Paulete, minha filha, e Raquel. E meu genro é Sérgio.

ITA

Que tipo de educação religiosa o senhor deu para seus filhos?

MOJSIE

É normal, é normal ser judeu, compreende? Não é sem judeu, sim, sem judeu. E graças a Deus todos são estudados: meu filho estudado, minhas filhas, meu genro. E graças a Deus cheguei nessa idade como eu estou.

ITA

E o senhor falou sobre o que o senhor passou para sua mulher, para seus filhos?

MOJSIE

O que eu passei? Como não?

ITA

Sobre a guerra, sobre tudo que o senhor contou.

MOJSIE

Olha, até para meus netos, fizeram até trabalhos na escola. Contei tudo. Mas às vezes parecia, nem eu acreditava, que eu podia passar por essas coisas que eu passei. E graças a Deus, como eu falei, é tudo que eu conto, é tudo verdade. Nem uma palavra que seja fora do que eu passei.

ITA

O senhor falou que seus filhos são casados, são casados com pessoas de que origem?

MOJSIE

[Judaica], todos, graças a Deus. O marido que está sentado é o Sérgio, é o marido dela.

ITA

Qual é o nome?

MOJSIE

Sérgio [Pripas?].

ITA

E qual é o nome dos netos?

MOJSIE

Os netos, vou começar. O neto mais velho, tem 21 anos, é Flávio. Um neto com 18 anos, é Daniel. E uma moça, que estou aqui na foto, uma moça — estou tão nervoso aqui — me ajuda?

VOZ FEMININA (fora de quadro)

Luciana.

MOJSIE

Hã?

VOZ FEMININA (fora de quadro)

Luciana.

MOJSIE

Ah, Luciana. Viu? Depois tem uma neta, a filha de meu filho, a filha de meu filho, Karen. Depois tem um neto, que se chama Gabriel, que vai fazer logo 13 anos, bar mitzvah. A minha outra neta tem já 13 para 14. Em Israel tem Fábio, um neto que foi na bar mitzvah, 13 anos. E mais uma neta, Karen — não Karen, é Fernanda — e 10 anos. Minha filha lá trabalha como dentista, trabalha no hospital, estou muito bem, estou muito contente lá. Às vezes quando vem visitar, a gente vai visitar, está tudo bem.

ITA

O senhor pensa muito na guerra, no que aconteceu?

MOJSIE

Olha, eu penso na guerra, era muito triste, sabe? De repente, você fica...

ITA

Mas o senhor refez a sua [vida] aqui.

MOJSIE

[?] Eu me senti no mundo sozinho, sem ninguém. Mas eu perguntei a mim mesmo: será que eu vou ter família outra vez? Mas graças a Deus, como falei, casei, e família linda, estou aqui. Faço mês que vem, em dezembro, 83. Eu falo, eu estou entre a família, tenho filhos, netos. Essa é a [graça de] Deus, uma linda família, e assim está indo.

MOJSIE

E uma vez me perguntou uma coisa: como eu achei, se eu ficaria quando não é servo de Deus. Eu falei que não. Logo depois da guerra, eu falei: nunca. Essa aqui eu falei. Tinha tanta gente, tinha rabinos, tinha padres, tudo religiosos. Aí eu perguntei: onde estava Deus? Mas ninguém tem resposta. Então, parece aquilo que eu queria dizer. Como começou outra vez? Casei, entrou Israel no meio. Como eu não nasci, continuei a ser judeu — e judeu como raça, como povo. E assim cheguei a 83 anos.

ITA

E mais? Vamos acabar essa fita. Obrigada.

FITA 5 — Fé, Radom, a irmã, as fotografias, a família reunida[121:47] – [137:14]

ITA

Sr. Moisés Stobiecki. Sr. Moisés, e hoje, como é que é? O senhor crê em Deus?

MOJSIE

Sim, creio em Deus. Tem minha religião, como eu nasci, e Deus me deu essa idade.

ITA

E hoje o senhor frequenta a sinagoga?

MOJSIE

Frequento, como pode. Frequento. Gosto muito da nossa sinagoga na Hebraica. Adoro. Nós tivemos aqui na Ipiranga, infelizmente diminuiu o pessoal, mas nós temos na Hebraica muito. Adoro lá.

ITA

O senhor tem mais algum episódio que o senhor queira contar sobre o seu trabalho?

MOJSIE

Sim. Eu, no caminho, passei por uma cidade, [Radom]. Radom é uma cidade que era muito judaica. Muitos judeus que moravam lá. E é uma cidade boa, rica. E quando eu [cheguei na] cidade, eu procurei onde eu posso, no meu descanso, um pouquinho. Encontrei lá a sociedade onde todo mundo se junta, a sociedade judaica. E nesse tempo vem sequestro. Os alemães levaram umas pessoas mais ricas da cidade e pediram para resgatar muito, muito dinheiro. Foram depois que foram para a concentração. Antes eles deram muitas somas, ouro, outras joias, muito dinheiro. E muita gente foi sequestrada lá. E nesse tempo eu fiquei lá um dia. Mais adiante, não sei o que poderia acontecer, acho que eles foram no mesmo destino que todos os [judeus]. Mas antes, levaram tudo que tinha.

ITA

Foi em que época isso?

MOJSIE

Essa foi no começo, mais ou menos, 40. 40, mais ou menos. Não era ainda que levaram gente para a concentração. Logo no começo.

ITA

Tem mais algum episódio que o senhor lembra que foi um episódio marcante na sua vida?

MOJSIE

Sim, muito marcante foi quando encontrei sobrevivente. E me encontrou. Que jeito minha família morreu. Essa foi mais triste para mim.

ITA

O senhor disse que a irmã...

MOJSIE

Sim, uma irmã, que a sobrevivente me contou que não estava dentro da concentração. E ela encontrava uma pessoa que eu conheci muito, e se eles — ela mesma me falou — se eles casaram e foram para a Rússia, pode ser. Mas não tenho certeza, não sei, não tem, até hoje não tem nenhuma informação, sei direito. Eu, quando estava em Israel, entre os russos, não dava para descobrir. Não sei o que aconteceu com ela.

ITA

Então, eu queria que o senhor deixasse uma mensagem para os seus filhos, para os seus netos.

MOJSIE

Para meus filhos e para meus netos, para mim, senhora: paz, felicidade, saúde. Tudo o que eu tenho. E se Deus quiser, vamos continuar. Até Deus quiser.

ITA

Muito obrigado.

MOJSIE

Obrigado.

As fotografias

MOJSIE

Essas fotos são dos meus avós paternos. Chama-se Stobiecki, família Stobiecki.

ITA

De quando essa foto?

MOJSIE

Essa foto foi tirada antes da guerra.

ITA

E como é que o senhor tem ela?

MOJSIE

Como mandaram para meus pais, para a família. E para ter uma foto dos meus avós.

MOJSIE

Essa foto é minha família: são meus pais, meus irmãos e noivo da minha irmã. Meu pai chamava Hersh, minha mãe Regina.

ITA

Do lado da sua mãe, quem é o rapaz?

MOJSIE

Noivo da minha irmã, eu falei. E meu irmão, em pé, chamava Shia. Eu chamava Moisés, Moish. E meu irmão mais novo — fala a verdade, não me lembro o nome dele.

ITA

Essa foto foi tirada [quando]?

MOJSIE

Essa foto foi tirada mais ou menos entre 1938 e 1939.

ITA

Qual era o nome da sua irmã?

MOJSIE

Marisza, em polonês.

MOJSIE

Essa foto eu mesmo tirei. Essa é da nossa loja que nós tivemos na Polônia, na Kalisz. Aqui está na porta meu pai.

ITA

Foi tirada quando essa foto?

MOJSIE

Essa foi tirada mais uns anos antes da guerra, mais ou menos. Foi em 1936, 1937, mais ou menos isso aqui.

MOJSIE

Essa foto é do meu pai e da minha mãe, de traje de inverno, antes da guerra, mais ou menos em 1938 ou 1939.

MOJSIE

Essa foto são meus tios, são um irmão do meu pai e minha prima também, só não me lembro o nome. Ela chamava, era só do meu tio, [?].

ITA

Foi tirada quando essa foto?

MOJSIE

Essa foi tirada essa foto mais ou menos também em 1937, 1938, porque era na nossa casa.

ITA

Eles eram bem íntimos? Eles moravam próximo?

MOJSIE

Não, também.

ITA

Eles eram bem íntimos, os dois?

MOJSIE

Também íntimos. Eles ficavam na [nossa casa]. Ele quase criou nós.

ITA

E o senhor sabe o que aconteceu com eles?

MOJSIE

Não.

MOJSIE

Essa foto, eu estou em Paris, trabalhando. É a primeira, o primeiro do meu futuro que podia acontecer. Trabalhando.

ITA

O que era isso?

MOJSIE

Essa aqui, mais ou menos, foi em 45, 46, 45, 46, 47. Não, 46 eu cheguei, até 45, até 47.

MOJSIE

Essa foto é a mais linda do mundo. Sou eu, Moisés, e a Clara, minha esposa. Desde que continuamos muito tempo. Fazemos 48 anos de casados. Até Deus ajuda até mais.

ITA

Aonde o senhor se casou?

MOJSIE

Eu me casei em Brasil, São Paulo, 1950.

ITA

E essa foto foi tirada aonde?

MOJSIE

Essa foi no salão.

MOJSIE

Essa foto é a bar mitzvah do meu neto, Daniel. Perto dele é o pai, Sérgio; eu, Moisés; meu neto, Gabriel; minha senhora, Clara; minha filha Raquel; minha nora Cíntia; meu filho Henrique; minha neta Karen; minha neta Luciana e meu neto Flávio.

MOJSIE

Essa foto é minha neta Karen, linda.

ITA

Foi tirada quando?

MOJSIE

Foi tirado em data... mais de um ano.

MOJSIE

Essa foto é de Israel, no último, que a bar mitzvah do meu neto é Fábio Mantelmacher. Depois, o pai dele... Sérgio Mantelmacher. E depois minha neta, Dana, e minha filha, Paulete.

ITA

Essa foi tirada, foi o mês, não?

MOJSIE

Foi em outubro de 1997.

MOJSIE

Esse documento é medalha que eu ganhei durante a guerra, pela bravura, até 1945, que eu ganhei medalha da bravura do exército polonês.

MOJSIE

Esse documento eu ganhei na saída do exército, como eles ajudaram cada um soldado para poder sobreviver no primeiro mês. Eu ganhei uma quantidade pequena de dinheiro e uma cesta de provimentos, chamam em polonês, para sobreviver um tempo.

A família reunida

MOJSIE

Aqui é minha família, meus filhos, meus netos. Apresento meu filho Henrique, minha senhora Clara, minha filha Raquel, meu genro Sérgio, meu neto Flávio, meu neto Daniel e minha neta Luciana. Falta ainda a minha filha que está em Israel e meus dois netos em Israel: a Paulete, Fernanda e Fábio. E minha nora, a Cíntia, e dois netos, Gabriel e Karen.

ITA

O senhor quer falar alguma coisa, aproveitar que a família está toda reunida? O senhor quer falar alguma coisa?

MOJSIE

Hoje eu sou feliz, um dia mais feliz. Estou reunindo aqui minha família, meus netos, meus filhos. E estou muito feliz hoje que chegou essa hora, para me fazer essa idade e contar a minha história que eu contei. E Deus me dá esses anos. E se Deus quiser, ainda tem muita coisa em frente.

ITA

Alguém mais quer?

CLARA

Eu vou falar. Eu estou também, junto com meu esposo, muito feliz de a gente poder dar essa entrevista. Estamos felizes que passou, mas conseguimos formar nossa família. Somos muito felizes com os filhos, com os netos, com nossa vida, nossa vida simples, mas muito boa. E eu agradeço a Deus de ele poder ter, com essa idade, poder contar o que ele passou. E espero que nunca mais ninguém precise contar essas histórias — só alegrias.

FILHA

Eu quero também falar umas palavras, em nome de nós todos: agradecer a dedicação, o carinho que nós tivemos dos meus pais, do meu pai, a vida toda. E agradecer muito a essa grande lição de judaísmo que nós tivemos a vida inteirinha. Obrigada, pai. E a iniciativa de vocês também, que estarem fazendo esse documentário muito importante.

[137:14] — end of the interview.