Como ler esta tabela. A coluna Fonte diz de onde vem cada linha, e isso importa:
Marca Significa ENTREVISTA 00:00ele mesmo diz, no vídeo, no tempo indicado DOCUMENTOconsta de um documento — da família (carteira de admissão, habilitação) ou de arquivo (fichas de DP do Arolsen Archives, recuperadas em 30/08/2026) HISTÓRIAnão é sobre ele; é o fato histórico que enquadra o momento, com fonte em ../contexto/INFERÊNCIAdedução minha, cruzando as três coisas acima. Não é fato estabelecido. Datas em negrito são firmes. Datas com
~são aproximadas. Onde há conflito entre versões, a linha diz qual foi adotada e por quê.
I. Kalisz, 1914–1939#
| Quando | O quê | Fonte |
|---|---|---|
| 12/12/1914 | Nasce em Kalisz, Polônia (então Império Russo, sob ocupação alemã desde agosto) | ENTREVISTA 01:32 · família |
| — | Pai: Hersch (Herz/Hersz) Stobiecki, nascido em Błaszki, 30 km de Kalisz. Mãe: Regina, de solteira Grodans — grafia confirmada pela ficha DP de 1946 (Arolsen 69312025) | ENTREVISTA 02:27, 06:11 · DOCUMENTO |
| — | Avós paternos e maternos moravam em Błaszki, de um pequeno comércio | ENTREVISTA 03:02, 06:40 |
| — | Herz tinha quatro irmãos e uma irmã; os irmãos moravam em Kalisz | ENTREVISTA 03:33 |
| — | Mojsie é o mais velho de cinco (o cartão de registro da família, ~1934, documenta todos): Izrael/Mojsie (12/12/1914), Frania (03/02/1917), Marjem/Marisha (04/05/1919), Szyja/Shia (06/03/1922) e Majer (16/01/1929) — o nome do caçula, que ele já não lembrava em 1997, está recuperado: "Majer" no cartão + "Mayer" na ficha VHA | DOCUMENTO (AP Kalisz, karta 219 — ../pesquisa/docs/) · ENTREVISTA 07:46, 127:50 |
| VIII/1930 | Morre Frania, aos 13 anos, em Kalisz — a irmã que nenhuma memória registrou: não é mencionada na entrevista, e a família não sabia dela até 30/08/2026. Mojsie tinha 15 | DOCUMENTO (karta 219, adnotação "zmarła VIII 30 r. Kalisz") |
| ~1921 | Entra no cheder aos sete anos; depois a escola da comunidade (gemeinde), mista, em ídiche, hebraico e polonês | ENTREVISTA 07:08, 13:41 |
| ~1927 | Bar mitzvah, aos 13 anos, na sinagoga | ENTREVISTA 12:36 |
| anos 1920–30 | A família passa de muito pobre a bem estabelecida: loja de confecções na Kanonicka, moradia no segundo andar do mesmo prédio, rua Parczewskiego 12. Confirmado por fonte primária: a Księga Adresowa Polski de 1929 lista o alfaiate "Stobiecki H., Nadwodna 12" — Nadwodna era o nome da Parczewskiego até 1937 | ENTREVISTA 04:03, 10:12 · DOCUMENTO (KAP 1929, em ../pesquisa/docs/) |
| 1931 | Censo polonês: Kalisz tem 15.300 judeus, ~30% da população (ele estimou 20–30%, portanto correto) | HISTÓRIA → 01-kalisz |
| até ~1932 | Estuda até os 18 anos; trabalha na loja em paralelo | ENTREVISTA 14:30 |
| anos 1930 | Militante do Beitar (movimento juvenil revisionista de Jabotinsky) e do Maccabi | ENTREVISTA 14:57, 17:38 |
| 1936–1938 | Antissemitismo se agrava em Kalisz: piquetes nas portas das lojas judaicas, feira segregada em 1937, restrição ao abate kosher em 1938 | ENTREVISTA 11:02 · HISTÓRIA → 03-antissemitismo |
| 1937–1938 | Serviço militar regular no exército polonês | ENTREVISTA 22:11 |
| 25/07/1938 | A fotografia de família — os pais, Marisha e o noivo; em pé, Szyja, Mojsie e o caçula Majer (os dois irmãos identificados pela família em 01/09/2026; Majer, 9 anos pelo D02, aparenta mais — nota em C03) | DOCUMENTO (slide 4) · ENTREVISTA 127:25 · família |
| ~1938–39 | O noivo de Marisha morre "no início da guerra" | família |
II. A guerra começa, 1939#
| Quando | O quê | Fonte |
|---|---|---|
| 01/09/1939 | Alemanha invade a Polônia. Kalisz fica a ~30 km da fronteira alemã | ENTREVISTA 04:55 · HISTÓRIA |
| ~fim ago/1939 | Mobilizado. A unidade é posicionada perto da fronteira | ENTREVISTA 04:47 |
| primeiros dias de set. | Em retirada, passa pela própria cidade. Manda recado ao pai por um desconhecido. Herz o encontra na rua e lhe entrega [tefilín?] e um pouco de dinheiro | ENTREVISTA 05:22 |
| 06/09/1939 | Alemães ocupam Kalisz. Violência imediata contra judeus | HISTÓRIA → 04-setembro-1939 |
| set/1939 | Retirada até Varsóvia; armamento pesado abandonado; trem bombardeado | ENTREVISTA 23:01 |
| 17/09/1939 | URSS invade a Polônia pelo leste | HISTÓRIA |
| ~fim set/1939 | Capturado pelo Exército Vermelho. Foge escondendo-se no mato alto | ENTREVISTA 24:23 |
| 28/09–05/10/1939 | Sukkot. Acolhido com outros soldados na sinagoga de Shedlitz (Siedlce, que ele nomeia em iídiche); cada soldado janta numa casa | ENTREVISTA 25:56 |
| out–nov/1939 | Caminha 400–500 km de volta para Kalisz, mais de um mês na estrada | ENTREVISTA 26:43 |
| — | No trem: dois alemães procuram judeus. Ele finge ser mudo por 10–15 minutos e um polonês o defende | ENTREVISTA 27:41 |
| — | Na estrada, um oficial alemão o arranca do acostamento e o joga do outro lado — "o segundo milagre" | ENTREVISTA 28:46 |
| — | Numa casa perto de Błaszki, acorda de madrugada com um homem com o emblema de Hitler, que o esconde até a madrugada e o leva à estrada — "o terceiro milagre" | ENTREVISTA 31:34 |
| ~nov/1939 | Chega em casa. Encontra a família inteira viva. É a última vez que os vê | ENTREVISTA 32:32 |
III. A separação, 1939–1940#
| Quando | O quê | Fonte |
|---|---|---|
| 10/11/1939 | Começam as expulsões em massa dos judeus de Kalisz, pelas ruas mais ricas primeiro, para instalar alemães bálticos. Dez minutos para fazer as malas | HISTÓRIA → 05-warthegau |
| nov/1939 | Avisos nas esquinas mandam os homens da idade dele se apresentarem. Ele propõe à família fugir junto; os pais recusam: "Como eu vou fazer? Vou deixar tudo isso aqui?" | ENTREVISTA 33:43 |
| ~nov–dez/1939 | Combina com o irmão que ele tome conta. Despede-se dos pais e atravessa para a zona soviética, até Białystok | ENTREVISTA 34:24 |
| 20/11–02/12/1939 | Mais de 10.000 judeus de Kalisz são trancados na hala targowa (mercado coberto dos irmãos Szrajer), cercada de arame farpado; epidemia de tifo | HISTÓRIA → 05-warthegau |
| 02–14/12/1939 | Partem dez trens com 15.862 pessoas para o Governo Geral. Os dois primeiros, de 02/12, vão para Lublin e Sandomierz; seguem-se Kałuszyn, Łuków, Sarnaki, Sokołów Podlaski, Węgrów, Łosice, Rzeszów e Kraków. O último parte em 14/12 — dois dias depois do 25º aniversário de Mojsie | HISTÓRIA → 05-warthegau |
| ~1939–40 | INFERÊNCIA: a família terá sido expulsa nessa leva — moravam numa rua central com loja, exatamente o perfil visado primeiro, e Mojsie saiu dias ou semanas antes | INFERÊNCIA |
| 1939–40 | Em Białystok como civil. Arruma emprego num restaurante | ENTREVISTA 36:46 |
| 28–29/06/1940 | Deportação soviética dos bieżeńcy — ~75.000 refugiados da zona alemã, mais de 84% judeus. Presos numa batida de rua, embarcados em trens | HISTÓRIA → 07-deportacoes |
| — | Ele é pego numa batida assim, com a certidão de nascimento no bolso, ao sair para dar uma volta depois do trabalho | ENTREVISTA 37:07, 41:41 |
| — | A viagem de trem: dois meses, 60 pessoas por vagão, beliches de tábua, um buraco no chão, peixe salgado e nenhuma água. "Todo o trem começando a gritar água" | ENTREVISTA 39:32, 40:45 |
IV. União Soviética, 1940–1943#
Este é o trecho com a contradição interna dele. Ver a nota no fim.
| Quando | O quê | Fonte |
|---|---|---|
| jul–ago/1940 | Chega a um campo de trabalho. Ele o chama de "Kronstadt" (fala confirmada; lugar não identificado), fora da cidade. Uma comissão vem de Leningrado | ENTREVISTA 60:44 |
| — | INFERÊNCIA: compatível com o norte da Rússia (Arkhangelsk, Vologda, Komi), destino principal da leva de junho de 1940 | INFERÊNCIA |
| 1940–41 | A entrevista que lhe salva a vida: um oficial lhe fala em hebraico e pergunta a profissão do pai. Ele mente — diz que o pai era alfaiate de fábrica, e que sabe costurar | ENTREVISTA 61:49 |
| 1940–41 | Montam uma oficina de costura do zero, com um alfaiate de Lodz ensinando. Linha de produção improvisada. Reconhecidos como stakhanovistas: comida e cama melhores | ENTREVISTA 62:49, 64:00 |
| 22/06/1941 | Alemanha invade a URSS | HISTÓRIA |
| ~jul/1941 | Evacuação para a Sibéria. Trens fechados, peixe salgado, russos impedidos de dar água nas estações | ENTREVISTA 70:20 |
| 1941–42 | Sibéria: 40 graus abaixo de zero, barracão sem banheiro, trabalho na terra. "Eu me pergunto sozinho: que jeito eu sobrevivi?" | ENTREVISTA 71:25, 72:21 |
| 12/08/1941 | Anistia aos cidadãos poloneses na URSS (acordo Sikorski–Maiski). Entre ago/1941 e dez/1942, 90.662 judeus poloneses são libertados de campos e assentamentos | HISTÓRIA → 09-anistia-anders |
| início de 1942 | Desloca-se para a Ásia Central (Uzbequistão, Cazaquistão), onde se forma o Exército de Anders. Ele cita Karaganda e Tashkent | ENTREVISTA 42:32, 44:11 |
| a partir de 06/02/1942 | Recrutamento no exército polonês. Os soviéticos proíbem o alistamento de judeus dos territórios anexados; discriminação sistemática | HISTÓRIA → 09-anistia-anders |
| ~05/04/1942 | O episódio de Tashkent. Páscoa católica; almoço do exército. Um oficial polonês manda barrar judeus da fila. Ele recusa: "Eu sou soldado polonês, mas sou judeu. Eu não vou fazer isso." Preso, julgado — e ganha a causa; o oficial é transferido | ENTREVISTA 43:54–46:00 |
| mar–set/1942 | O Exército de Anders sai da URSS pelo Irã. Ele não vai | HISTÓRIA · INFERÊNCIA |
| maio/1943 | Forma-se a 1ª Divisão Tadeusz Kościuszko, sob comando soviético (Exército de Berling). Dos 54.600 soldados, ~2.400 judeus | HISTÓRIA → 10-berling-lenino |
| 1943 | "Quando chegou já outro presidente, já era presidente comunista... assim marchamos junto com o exército russo" | ENTREVISTA 49:22 |
| 12–13/10/1943 | Batalha de Lenino, primeiro combate da divisão: 25–33% de baixas, cerca de 3.000 homens | HISTÓRIA |
| ~1943 | Ferido na mão esquerda por estilhaço de granada. Iam amputar; ele implora e conseguem salvar a mão. Um mês de hospital. Ficou sem força na mão pelo resto da vida | ENTREVISTA 53:17 |
V. O retorno à Polônia, 1944–1945#
| Quando | O quê | Fonte |
|---|---|---|
| 23–24/07/1944 | Soviéticos libertam Majdanek, primeiro grande campo capturado praticamente intacto | HISTÓRIA → 11-majdanek |
| jul/1944 | O 1º Exército Polonês participa da ofensiva Brest–Lublin | HISTÓRIA |
| ~jul–out/1944 | Ele entra em Majdanek. Dorme nas barracas. Descreve os crematórios, os ossos, as montanhas de sapatos de criança, as valas sem fim. E diz: "E meus pais, minha e toda a família morreram lá." | ENTREVISTA 55:07–56:09, 79:40–81:25 |
| 02–09/10/1944 | Sukkot. Judeus sobreviventes de Lublin pedem aos oficiais que liberem os soldados judeus para jantar na cidade. Marcham até lá em fila | ENTREVISTA 56:16 |
| nov/1944 | Cria-se o Museu Estatal de Majdanek — o primeiro museu de campo de concentração do mundo, quatro meses após a libertação | HISTÓRIA |
| 1945 | Passa por Kalisz com o exército. Encontra uma vizinha sobrevivente e descobre o que houve com a família | ENTREVISTA 84:42, 85:33 |
| — | O relato dela: um zelador do prédio denunciou os bens escondidos no porão; os alemães vieram de carroça, usaram Herz como carregador e, tiradas as bestas, o puseram a puxar a carroça no lugar dos cavalos. Todos morreram. Só sobre Marisha ela tinha dúvida — estava fora do campo | ENTREVISTA 86:04–87:19 |
| 1945 | Volta à loja (virou loja de ferragens) e à casa (ocupada por uma polonesa que chora e diz que antes dela moravam alemães). Procura o zelador para se vingar; não o encontra | ENTREVISTA 88:23–89:55 |
| 1945 | Vai ao gueto de Lodz, já vazio: "só se pisava nas fotos que tinha no chão" | ENTREVISTA 106:32 |
| 1945 | Condecorado com medalha de bravura do exército polonês. Baixa em Lodz | ENTREVISTA 90:13, 91:38 |
| 1945 | Consta do Registry of Jewish Survivors do World Jewish Congress como "Stobiecki Moniek, Kalisz" — registrado como sobrevivente na própria cidade natal | DOCUMENTO (Arolsen 78813849, p. 243; cópia em ../pesquisa/docs/) |
VI. Europa do pós-guerra, 1945–1947#
| Quando | O quê | Fonte |
|---|---|---|
| 20/11/1945 – 01/10/1946 | Julgamento de Nuremberg | HISTÓRIA → 14-nuremberg |
| ~inverno 1945–46 | Sem família e sem casa, junta-se a um grupo de ex-soldados e atravessa a fronteira com um pacote de 100 cigarros e um litro de vodca. Um quilômetro de neve aberta até a floresta ("muito inverno, muita neve") | ENTREVISTA 93:10 |
| ~1946 | Frankfurt an der Oder; "um tempo na Alemanha" | ENTREVISTA 95:01 |
| 08/06/1946 | Registrado como deslocado no Assembly Center 67, Heidenheim an der Brenz (Baviera/Württemberg): apátrida, solteiro, alfaiate, pai Hersz, mãe Grodans Regina, destino desejado: Palestina | DOCUMENTO (ficha A.E.F., Arolsen 69312025; cópia em ../pesquisa/docs/) |
| 16/08/1946 | Na lista oficial de Stamsried, Landkreis Roding, Baviera — "Stamsried Nr. 111", sozinho | DOCUMENTO (Arolsen 70200907) |
| 1946 | Assiste à entrada e saída dos réus em Nuremberg, do lado de fora do portão. Cita Goebbels e Göring — Goebbels é anacronismo da memória (morto em maio/1945); Göring estava lá. INFERÊNCIA que agora fecha: Stamsried fica a ~100 km de Nuremberg, e ele estava na Baviera justamente durante o julgamento | ENTREVISTA 108:48, 109:24 · INFERÊNCIA |
| 04/07/1946 | Pogrom de Kielce: 42 sobreviventes assassinados. Nos meses seguintes, ~100.000 judeus deixam a Polônia | HISTÓRIA → 13-retorno-1945 |
| ~fim de 1946 | Trem para Paris. Primeira noite: hotel de décima categoria, polícia no meio da noite. Liberado por ter documento de ex-combatente — os que vinham dos campos eram devolvidos à Polônia | ENTREVISTA 95:28, 95:51, 96:38 |
| 1946–47 | Trabalha três meses de graça para aprender a fazer calça. Depois consegue serviço numa firma exportadora; o Joint avaliza o crédito da primeira máquina de costura. Chega a ter uma pequena oficina, das sete da manhã à meia-noite | ENTREVISTA 97:42–100:16 |
| 19/08/1947 | Passaporte polonês nº 074.893, expedido em Paris pelo Consulado Polonês | DOCUMENTO |
| 1947 | Visto brasileiro em Paris, nº 2529 | DOCUMENTO |
| — | Um amigo a caminho dos EUA passa pelo Brasil levando o nome dele. Em dois meses vem resposta: um primo no Rio de Janeiro, o resto da família em Porto Alegre | ENTREVISTA 110:40 |
VII. Brasil, 1947–1950#
| Quando | O quê | Fonte |
|---|---|---|
| 18/09/1945 | Brasil promulga o Decreto-Lei 7.967, que condiciona a imigração à "necessidade de preservar e desenvolver, na composição étnica da população, as características mais convenientes da sua ascendência europeia" | HISTÓRIA → 16-brasil-imigracao |
| 06/12/1947 | Desembarca no porto de Santos, do vapor francês GROIX (Chargeurs Réunis), vindo de Le Havre via Casablanca e Rio — 3ª classe, sozinho, "alfaiate", destino declarado Porto Alegre. Na mesma lista de temporários: outros oito judeus poloneses vindos de Paris. Entra como temporário, com permanência até 06/06/1948 (art. 7º-A na lista; art. 34 na carteira — ambos do Dec.-Lei 7.967/1945) | DOCUMENTO (lista de bordo, ../pesquisa/docs/; carteira de admissão) |
| — | Estima-se que 15 a 20 mil sobreviventes entraram no Brasil após 1945, boa parte com visto de turista ou documentos falsos, contornando a barreira consular | HISTÓRIA |
| dez/1947–1948 | Chega por Porto Alegre; três meses de turista, prorroga por mais três, e passa a São Paulo | ENTREVISTA 111:54 |
| 08/03/1948 | Carteira de admissão emitida no Rio de Janeiro | DOCUMENTO |
| 1948 | No Bom Retiro reencontra vizinhos de Kalisz, da mesma rua e do mesmo ramo do pai, e um Goldman que trabalhara para a família. Jantares de sábado | ENTREVISTA 112:26 |
| ~1948–49 | Começa como todo imigrante: clientela — vendedor a prestação | ENTREVISTA 114:23 |
| ~1949 | Conhece Clara pelo Macabi de São Paulo; a irmã dela morava ao lado | ENTREVISTA 113:18 |
| 18/05/1950 | Edital de proclamas no Diário Oficial de SP: "natural da Polônia… alfaiate, filho de Her[z] Stobiecki e de dona Re[gina]"; a noiva, natural de Curitiba | DOCUMENTO (DOE-SP, Judiciário p. 18 — achado 31/08/2026) |
| 03/06/1950 | Casamento com Clara Schnaider. Foto do casamento preservada (o documento hebraico guardado com ela foi reidentificado como um noivado europeu pré-guerra — ver ../fontes/fotos/README.md) | DOCUMENTO · ENTREVISTA 114:16 |
A contradição de 1940–1942, e o que foi adotado#
Ele dá duas versões incompatíveis do destino do trem que o levou de Białystok:
- Em 41:16–42:41: dois meses de viagem "para a Ásia", chegando a Karaganda, no Cazaquistão.
- Em 60:44–70:20: o primeiro destino foi um campo de trabalho que ele chama de "Kronstadt" (a fala foi confirmada pela passada dirigida de 30/08/2026; o lugar segue não identificado), fora da cidade, com uma comissão vinda de Leningrado; só depois da invasão alemã (junho de 1941) foi evacuado para a Sibéria; e só depois disso chegou à Ásia Central.
A cronologia acima adota a segunda versão. Três razões:
- A leva de 28–29/06/1940, que era especificamente a dos refugiados como ele, foi despachada sobretudo para Arkhangelsk, Vologda e Komi — o norte, não a Ásia Central.
- A menção a Leningrado só faz sentido geográfico no norte.
- O Exército de Anders só se formou na Ásia Central a partir de 1942, depois da anistia de agosto de 1941. Chegar a Karaganda em 1940 e só entrar no exército dois anos depois não fecha.
A hipótese mais econômica é que ele comprimiu, na primeira vez que contou, uma sequência de três deslocamentos em um só. Ele mesmo avisa: "Eu acho que me atrapalhei um pouquinho, depois eu conto" (36:09) e "que me atrapalha um pouquinho, não sei se foi depois ou um pouquinho antes" (85:03).
O problema de Stalingrado#
Em 50:26–51:35 ele diz ter chegado perto de Stalingrado, descreve a fome no cerco ("não achava mais nem um gato, nem um cachorro"), as trincheiras, e conclui: "Lá foi a primeira batalha contra os alemães que eles perderam."
Isso não fecha com o exército em que ele serviu. A 1ª Divisão Kościuszko só se formou em maio de 1943 — três meses depois do fim da batalha de Stalingrado (fevereiro de 1943). Nenhuma unidade polonesa sob comando soviético esteve lá.
Leituras possíveis, sem escolher nenhuma:
- Confusão de nomes. Ele viveu a primeira batalha da sua divisão em Lenino (out/1943), e pode ter absorvido, ao longo de cinquenta anos, o enquadramento popular de Stalingrado como "a batalha em que os alemães começaram a perder" — que é literalmente o que ele diz.
- Outra condição. Pode ter estado na região em batalhão de trabalho soviético antes de 1943.
- Memória emprestada. O relato da fome no cerco tem a textura de coisa ouvida, não vivida; mas o das trincheiras e do ferimento tem a textura de coisa vivida. Podem ser dois episódios distintos que se fundiram.
Detalhe a favor da leitura 1: ele descreve o inverno russo virando a batalha e o armamento pesado alemão congelando — narrativa canônica de Stalingrado, muito difundida no pós-guerra soviético, que era o ambiente em que ele serviu.
Nada disso desqualifica o depoimento. Ele acertou dezenas de detalhes verificáveis: a data do próprio nascimento, a proporção de judeus em Kalisz, a rua da loja, o nome de Błaszki, a proibição de emblemas de oficial no exército polonês sob comando soviético, o Joint, o decreto brasileiro. O que se vê aqui é uma memória de 83 anos, não uma invenção.