O que ele conta#
[112:26] "Em São Paulo eu tinha uns vizinhos que eram do mesmo ramo do meu pai, da mesma rua. Chamavam-se
[?]. As filhas me conhecem até hoje." [112:41] "E havia uma pessoa chamada Goldman, que também tinha trabalhado para a gente. Era no Bom Retiro." [112:49] "E eu sempre ia visitá-los no Bom Retiro. Eles sempre convidavam, sábado, domingo, para o jantar de sábado. Eram bons conhecidos da Europa." [114:23] "Sabe, todo imigrante que chega a São Paulo — o primeiro começo, o que era? Era clientela. E assim a gente foi para a frente." [113:18] "Conheci a Dona Clara depois que resolvi não voltar mais para Paris. [113:29] Quando conheci a Dona Clara, eu ainda não sabia falar. Só que a irmã dela morava ali ao lado. [113:40] Era pelo Macabi — e do Macabi a gente se juntava lá na porta deles." [122:16] "Gosto muito da nossa sinagoga na Hebraica. (...) Nós tínhamos uma aqui no Ipiranga, mas infelizmente diminuiu o pessoal."
O que se sabe#
O Bom Retiro. No fim dos anos 1930, com a guerra, o número de judeus no bairro cresceu de forma expressiva; em uma década já eram maioria. A influência italiana dos anos 1940 foi sendo substituída pela presença judaica, a ponto de as próprias autoridades recomendarem o bairro quando se tratava de instalar novos imigrantes. Os proprietários — em boa parte judeus poloneses, junto com russos, gregos e outros — investiram nas lojas de roupa que ainda hoje definem o bairro, e que muitas vezes serviam também de moradia.
Ou seja: quando ele chega em 1948 e reencontra, no Bom Retiro, vizinhos da mesma rua de Kalisz e do mesmo ramo do pai, isso não é coincidência. É a reconstituição de uma rede — de ofício, de língua e de origem — do outro lado do Atlântico.
A "clientela". Era o ofício de entrada quase obrigatório do imigrante judeu no Brasil: vender de porta em porta, a prestação, em geral tecidos, roupas e utensílios domésticos, em bairros operários e periféricos. Em ídiche, o vendedor era o klientelchik. Não exigia capital nem língua — só crédito com um fornecedor e disposição para andar.
E é aqui que a habilitação de 1952 se encaixa. Em 23 de julho de 1952 ele tira carteira de "cocheiro profissional — dirige 1 animal". Um mascate a pé vira um mascate com carroça: mais mercadoria, mais bairros, mais alcance. A carteira de cocheiro é o comprovante material da ascensão descrita em [114:23] — e a foto ao lado dela, dele na boleia, é a mesma cena vista por fora.
O Macabi de São Paulo. O clube reproduziu no Brasil a instituição que ele frequentara em Kalisz (ver 02-beitar-maccabi). Era um dos principais espaços de sociabilidade e de formação de casais da colônia. Foi ali que ele conheceu Clara — sem falar português, como ele mesmo diz.
A Hebraica (A Hebraica – Sociedade Brasileira de Cultura e Beneficência) foi fundada em 1953 e se tornou o principal centro comunitário judaico paulistano. Ele menciona frequentar a sinagoga de lá em 1997, e lamenta o esvaziamento da sinagoga do Ipiranga — que era o bairro onde morava (Rua Silva Bueno, 1542, conforme a carta da Shoah Foundation de 1998).
Clara#
Conforme informado pela família, Clara Schnaider já estava no Brasil — não é sobrevivente vinda da Europa no pós-guerra. Este dossiê, portanto, documenta apenas o ambiente em que os dois se conheceram, e não uma trajetória de deslocamento paralela.
O que a entrevista registra sobre ela é curto e vale preservar: a irmã morava ao lado; o encontro foi pelo Macabi; ele não falava português. E, no encerramento da fita 5, Clara fala — é a única outra voz adulta da família na gravação:
[136:10] "Estamos felizes que passou, mas conseguimos formar nossa família. (...) nossa vida simples, mas muito boa. E espero que nunca mais ninguém precise contar essas histórias — só alegrias."
Onde isso toca a narrativa#
É aqui que os fios se amarram, e vale explicitar para quem for escrever a história depois:
| O que veio de antes | Como reaparece em São Paulo |
|---|---|
| A confecção do pai, em Kalisz | O ramo dos vizinhos reencontrados no Bom Retiro |
| A costura aprendida à força num campo soviético | A oficina de calças em Paris, e depois a clientela |
| O Maccabi de Kalisz | O Macabi onde ele conhece Clara |
| A rua Kanonicka | As lojas de roupa do Bom Retiro |
Nada disso é metáfora. É a mesma rede de ofício e de comunidade, transplantada — e é o que permitiu a um homem de 33 anos, sem família, sem língua e sem dinheiro, recomeçar.
Fontes#
- Bom Retiro, o início — Revista Morashá
- Memória: Bom Retiro já foi reduto de lazer e da colônia judaica — Gazeta de São Paulo
- Enio Rechtman, Itaboca, rua de triste memória: imigrantes judeus no bairro do Bom Retiro, tese, USP, 2015
- A territorialização dos judeus na cidade de São Paulo: a migração do Bom Retiro ao Morumbi