"Eu me pergunto sozinho: que jeito eu sobrevivi, que jeito eu estou aqui… Eu acho que eu sobrevivi só para contar a história."
Mojsie Izrael Stobiecki · Kalisz 1914 — São Paulo 2000
24s · [72:21]

A família inteira, treze meses antes da guerra. Em pé: Szyja, Mojsie e o caçula Majer; sentados: Marisha e o noivo, Regina e Hersz. Desta fotografia, um sobreviveu.

"…avisa para meu pai que eu estou passando aqui… meu pai já estava me procurando e me trouxe [tefilín] e pouquinho dinheiro. E assim eu fui para a guerra."
Setembro de 1939. Em retirada, ele passa pela própria cidade. É a última lembrança do pai em liberdade.
35s · [05:22]
"Meus pais: "Como eu vou fazer? Vou deixar tudo isso aqui?" E ficaram mais atrás de mim. Então, o meu irmão… combinei com ele, que ele toma conta…"
Novembro de 1939. Ele parte para a zona soviética. Nunca mais os viu.
20s · [34:12]
"…começou todo o trem… E todo o trem começando a gritar "água". Não deram. Deram só para comer peixe salgado e um pedacinho de pão… E muito sede e muito fome."
Junho de 1940. Deportado pelos soviéticos: dois meses num vagão de sessenta.
27s · [40:45]
"Não podia lá falar que meus pais tinham comércio… eu falei: meu pai era alfaiate… "O que se sabe fazer?" Eu sei costurar."
No campo, um ofício inventado numa frase vira o ofício de uma vida inteira.
32s · [62:05]
"E nós ocupamos lá e dormimos nas mesmas camas onde dormiram. E meus pais, minha e toda a família morreram lá."
Julho de 1944. Com o exército, dias depois da libertação do campo. É a afirmação dele; nenhum documento a confirma ou desmente.
11s · [55:37]
"Precisa tirar tudo que tinha lá, nas costas, põe na carroça. Tiraram os cavalos de carroça. Meu pai foi cavalo, precisa puxar carroça com tudo isso aqui."
1945. De volta a Kalisz, uma sobrevivente lhe conta o que houve. O zelador que denunciou nunca foi encontrado.
17s · [87:04]
"E quando eu fiquei liberado, eu fiquei na meia da rua: onde eu vou? Não tinha onde ir, nem dormir, eu não tinha onde comer."
Da medalha do exército, "sobrou só papel. Da minha família, só sobrou também só papel." [90:13]
14s · [92:17]

Heidenheim, 8 de junho de 1946. A ficha de deslocado de guerra: solteiro, alfaiate, pai Hersz, mãe Grodans Regina. Destino desejado: Palestina.
""Se o senhor me quer aceitar, eu preciso sobreviver. Três meses eu vou trabalhar de graça… Só eu quero aprender a fazer a calça." Foi assim. Me ajudou, me convidou para almoço… e trabalhei três meses."
1946–47. A reconstrução, ponto a ponto.
23s · [97:58]

Santos, 6 de dezembro de 1947: um nome numa lista de bordo quase vazia. São Paulo, 3 de junho de 1950: Clara. A família que a guerra apagou começa a ser respondida.
"Eu me senti no mundo sozinho, sem ninguém. Mas eu perguntei a mim mesmo: será que eu vou ter família outra vez? Mas graças a Deus, como falei, casei, e família linda, estou aqui… tenho filhos, netos."Ele numerava os milagres e nunca fechou a série. O quinto é este:
38s · [119:22]

"Hoje eu sou feliz, um dia mais feliz. Estou reunindo aqui minha família, meus netos, meus filhos… E Deus me dá esses anos. E se Deus quiser, ainda tem muita coisa em frente."
25 de novembro de 1997, com a família na sala. (A fotografia: 2 de janeiro de 1989.)
32s · [135:38]